Fascite Plantar em Corredores: O Que É, Por Que Dói no Primeiro Passo e Como Tratar Baseado em Evidência

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Close de corredor sentado segurando o calcanhar do pé direito ao acordar de manhã, com tênis de corrida ao lado, indicando o momento típico da dor de fascite plantar

Os primeiros passos da manhã ardem. Você desce da cama, pisa no chão, e sente uma dor aguda no calcanhar — como se tivesse pisado em algo pontudo. Depois de alguns minutos, a dor se acomoda. À noite, ou depois de ficar muito tempo sentado, ela volta.

Esse é o padrão clássico de fascite plantar. Em corredores, ela representa entre 4% e 22% das lesões registradas em estudos de coorte (Taunton et al., 2002), e está entre as cinco lesões de membros inferiores mais comuns. Ao contrário do que o nome sugere, a maioria dos corredores que tem fascite plantar não tem inflamação clássica — tem degeneração do colágeno numa estrutura específica do pé. Essa diferença muda completamente o que faz sentido como tratamento.

Este guia cobre o que a literatura atual diz sobre fascite plantar para corredores: por que dói, quanto tempo dura, o que tem evidência boa de tratamento (alongamento específico de DiGiovanni, força de alta carga de Rathleff, ondas de choque), o que tem evidência limitada, e os mitos comuns que sites médicos genéricos repetem sem fonte. Há também uma seção de bandeiras vermelhas — porque nem toda dor no calcanhar é fascite plantar, e algumas das alternativas exigem encaminhamento profissional.

O Que É Fascite Plantar?

Fascite plantar é o nome popular para a dor crônica na origem proximal da fáscia plantar — a estrutura fibrosa que vai do calcanhar até a base dos dedos, sustentando o arco do pé.

A definição clínica padrão (revisão JOSPT, Koc et al., 2023) descreve fascite plantar como dor reproduzida à palpação no tubérculo medial do calcâneo (o ponto onde a fáscia se insere no osso), tipicamente pior nos primeiros passos pela manhã ou após qualquer período prolongado de inatividade — fenômeno que a literatura chama de post-static dyskinesia.

Existe uma nota terminológica importante. Embora “fascite” sugira inflamação (“ite”), estudos histopatológicos (Lemont et al., 2003) mostram que a maioria dos casos crônicos é de fasciopatia plantar ou fasciose — degeneração do colágeno, ausência de células inflamatórias agudas, hiperplasia vascular e espessamento da fáscia (>4 mm em ultrassom é o marcador típico). Por essa razão, vários autores defendem o termo “fasciopatia” como mais correto.

Na prática, essa diferença muda o tratamento. Se fosse inflamação aguda, repouso e anti-inflamatório fariam sentido como cura. Como é degeneração do colágeno, o que reorganiza o tecido é carga progressiva controlada — não repouso passivo.

Por Que Dói: Não É Apenas Inflamação

A explicação clássica era que microtraumas repetitivos na fáscia geravam inflamação local, e que a dor matinal vinha do “encurtamento” da estrutura inflamada durante a noite.

Pesquisas histológicas das últimas duas décadas (Lemont et al., 2003; Khan et al., 2002) reorganizaram essa visão. Quando se examina a fáscia plantar de pacientes com fascite crônica em microscópio, encontra-se:

  • Microrupturas no colágeno
  • Fibroblastos hipertróficos (células de reparo desorganizadas)
  • Aumento de mucina (acúmulo de tecido conjuntivo desorganizado)
  • Neovascularização (formação de novos vasos onde não deveriam existir)
  • Ausência de células inflamatórias clássicas (neutrófilos, macrófagos)

Em outras palavras, é um quadro de falha de reparo num tecido que está submetido a microtrauma repetitivo. A dor vem da estrutura disfuncional, não de uma inflamação aguda.

A dor matinal característica tem outra explicação: durante a noite, com o pé em flexão plantar, a fáscia fica encurtada. Os primeiros passos da manhã estiram bruscamente um tecido degenerado e hipersensibilizado — daí a sensação aguda nos primeiros 5 a 10 minutos. Depois que o tecido se aquece e se acomoda, a dor diminui. Isso não significa cura — é a fáscia recuperando comprimento operacional.

O Que Causa Fascite Plantar?

A literatura consensa em alguns fatores de risco com evidência forte e outros com evidência limitada. A revisão JOSPT (Martin et al., 2014; Koc et al., 2023) lista:

Fator de riscoEvidênciaMagnitude
ROM dorsiflexão limitado (<10°)Forte (CPG)OR 23,3 para <0° vs >10° (Riddle et al., 2003)
IMC elevado em não-atletasForte (CPG)OR ~3 para IMC >30 vs <25
Tempo prolongado em pé (ocupacional)Forte (CPG)Fator independente
Volume de corrida elevado / aumento súbitoModeradaRisco proporcional à carga semanal
Tendinopatia de Aquiles / encurtamento de tríceps suralModeradaComorbidade frequente
Pronação excessiva / pé planoLimitadaAssociação fraca em coortes
Calçado com baixo amortecimentoLimitadaHipótese mecânica plausível

Note o que está no topo: mobilidade limitada de dorsiflexão. Riddle et al. (2003) encontraram um odds ratio de 23,3 — ou seja, pessoas com dorsiflexão menor que 0° (pé não passa da posição neutra) têm risco massivamente maior do que pessoas com dorsiflexão maior que 10°. Em corredores, isso costuma estar associado a panturrilha encurtada e tendão de Aquiles rígido.

O segundo fator — volume e progressão de corrida — está alinhado com o que vimos em canelite corrida: a regra dos 10% de Nielsen et al. (2014) também se aplica aqui. Aumentar volume rapidamente sobrecarrega a fáscia além da capacidade de remodelamento.

Note também o que não está com evidência forte na lista: tipo de pisada, formato do arco, modelo de tênis. Esses fatores aparecem em discussão popular, mas a evidência prospectiva (Riddle 2003; van Leeuwen 2016) mostra associação fraca e inconsistente. Discutimos a relação pisada-lesão em mais profundidade em tipos de pisada na corrida.

Como Saber Se É Fascite Plantar ou Outra Coisa?

Esta é a seção mais importante para quem está começando a investigar a dor. Várias condições produzem dor no calcanhar e nem todas são fascite plantar — e algumas exigem encaminhamento profissional rápido.

CondiçãoPadrão da dorSinal-chaveConduta
Fascite plantarBorda medial do calcanhar; pior nos primeiros passos da manhã; melhora com o aquecimentoPalpação reproduz dor no tubérculo medial calcâneoManejo conservador com força + alongamento específico
Neuropatia de Baxter (nervo plantar lateral)Dor lateral ao calcanhar + parestesia / queimação medialNÃO tem dor de primeiro passo típica; piora ao longo do diaAvaliação neurológica; RM mostra atrofia gordurosa do abdutor digiti minimi (Beltran et al., 2010)
Fratura por estresse do calcâneoDor focal pontual; piora à noite; dor descalço em descansoEm corredores de alto volume e militaresRM ou cintilografia óssea; off-load (Sormaala et al., 2006)
Heel fat pad syndrome (atrofia do coxim)Dor difusa pelo calcanhar — “como pisar em prego”Atrofia visível do coxim adiposo; reproduzida por compressão lateralManejo com palmilha de coxim; ajuste de calçado
Espondiloartropatia (entesopatia)Dor bilateral simétrica + outras articulações; sintomas sistêmicosPode ser sinal de espondilite anquilosante, artrite reativa, psoriáticaEncaminhamento reumatológico

A bandeira vermelha mais importante para corredores é dor focal pontual + dor noturna + dor mesmo descalço em repouso — esse padrão sugere fratura por estresse de calcâneo, que exige imagem (RM) e off-load. Não é fascite plantar, e tratá-la como tal pode atrasar o diagnóstico.

A neuropatia de Baxter é menos óbvia porque também produz dor no calcanhar, mas o padrão é diferente: não há dor de primeiro passo; a dor piora ao longo do dia; e há queimação ou parestesia associada. Resposta menor a tratamento conservador padrão é outro indicativo.

Fascite Plantar É Grave? Tem Cura?

Sim, fascite plantar tem cura — e não é uma condição grave em quase totalidade dos casos.

O que ela é, é persistente. A maioria dos casos resolve em 6 a 12 meses com manejo adequado, e esse intervalo costuma ser frustrante para corredores que querem voltar rápido. Estudos de história natural mostram que cerca de 80% dos pacientes têm resolução em 12 meses (Wolgin et al., 1994), mas os primeiros 3 a 6 meses costumam ser os mais sintomáticos.

Casos refratários — pessoas que permanecem sintomáticas após 6 meses de tratamento conservador adequado — entram em categoria que merece intervenção mais agressiva (ondas de choque ou avaliação para casos cirúrgicos, embora cirurgia seja indicada em <5% dos casos).

Reincidência depende de manter os hábitos que combatem os fatores de risco — especialmente mobilidade de dorsiflexão e força excêntrica de panturrilha. Voltar à rotina anterior sem manutenção desses fatores aumenta risco de recorrência.

Como Tratar Fascite Plantar (Baseado em Evidência)

A literatura é razoavelmente densa nesse tema. As clinical practice guidelines do JOSPT (revisão de 2014 atualizada em 2023) sintetizam a evidência atual:

IntervençãoNível de evidênciaComentário
Alongamento específico da fáscia plantar (DiGiovanni)Forte (RCT)3×/dia, 10 reps por sessão, 8 sem. Benefício mantido em follow-up de 2 anos
Treino de força de alta carga (heavy slow resistance)Forte (RCT)Heel raise unipodal com toalha sob hálux; diferença de 29 pontos no FFI a 3 meses (Rathleff et al., 2014/2015)
Onda de choque (ESWT)Forte (meta-análise)OR 2.58 vs placebo; útil em casos refratários >6 meses
Órtese plantar (off-the-shelf ou custom)Forte (CPG)Curto-médio prazo; sem superioridade clara entre prefab vs custom
Taping rígido (low-Dye)ModeradaAlívio agudo, sem efeito de longo prazo isolado
Corticoide injetávelModerada (curto prazo)Melhor que placebo em 1-3 meses, mas risco de rotura da fáscia 0,6-2,4% e atrofia do coxim
AINEs oraisLimitadaAlívio sintomático; não modifica curso

Os dois protocolos com evidência mais forte de RCT são:

Alongamento específico de DiGiovanni: sentado, com a perna afetada cruzada sobre a outra, puxe os dedos do pé em direção à canela com uma das mãos, sentindo o estiramento ao longo do arco. Mantenha 10 segundos, repita 10 vezes, faça 3 sessões ao longo do dia (manhã, meio-dia, noite). DiGiovanni et al. (2003) mostraram em RCT (n=82) que esse protocolo é mais eficaz que alongamento genérico de Aquiles para fascite plantar, com manutenção do benefício em 2 anos de follow-up.

Heavy slow resistance de Rathleff: elevação unipodal do calcanhar (heel raise) com uma toalha enrolada sob o hálux para dorsiflexão exagerada do dedão. Faça 3 séries de 12 repetições, 3 vezes por semana, com tempo lento (3 segundos subindo, 2 segundos no topo, 3 segundos descendo). Aumente carga gradualmente (mochila com peso). Rathleff et al. (2014/2015) compararam esse protocolo com alongamento isolado e encontraram resultado significativamente melhor a 3 meses (29 pontos no Foot Function Index).

Esses protocolos são frequentemente combinados na prática clínica. Discutimos a lógica de carga progressiva também em treino de fortalecimento para corrida.

Sobre infiltração de corticoide: tem benefício de curto prazo, mas envolve risco real de ruptura da fáscia plantar (0,6-2,4%) e atrofia do coxim adiposo do calcanhar (David et al., 2017; Whittaker et al., 2019). Em corredores especialmente, esses dois riscos são significativos — uma fáscia rota gera meses adicionais de incapacidade. Se for opção, deve ser limitada a casos sintomáticos importantes que não responderam a tratamento conservador estruturado.

E Suplementação de Colágeno Funciona?

Esta é uma pergunta cada vez mais comum em fóruns de corredores, e a resposta honesta é: a evidência específica para fascite plantar é preliminar, mas a evidência por extensão (de tendinopatias com mecanismo similar) é moderada — sempre como adjuvante ao exercício, nunca como substituto.

O que a literatura tem hoje

Específico para fascite plantar:

  • Um RCT pequeno (n=44) publicado em 2021 testou ondas de choque (ESWT) sozinhas vs. ESWT + suplemento contendo 1 g de colágeno hidrolisado e 500 mg de vitamina C. O grupo combinado teve melhor evolução em dor e função em 3 e 6 meses. Limitação importante: amostra pequena e suplemento multi-componente — não isola o efeito do colágeno isoladamente.
  • Um RCT maior (NCT04578418), com follow-up de 12 meses, está em andamento. Resultados ainda não publicados.

Por extensão, em tendinopatias com fisiopatologia similar (degeneração colágena, não inflamação clássica):

  • Praet e colaboradores (2019), em RCT de tendinopatia de Aquiles, testaram colágeno peptídeo combinado com protocolo de fortalecimento de panturrilha. O grupo com suplementação teve melhor evolução clínica e funcional do que o grupo com exercício isolado.
  • O JUMPFOOD trial (2023) está testando colágeno + vitamina C como adjuvante a exercício em tendinopatia patelar (joelho de saltador).

Por Que Vitamina C Aparece Junto Com Colágeno

A vitamina C é cofator obrigatório para a hidroxilação da prolina e da lisina, dois passos essenciais na síntese de colágeno. Sem vitamina C suficiente disponível, o colágeno ingerido não é incorporado de forma eficiente ao tecido.

Shaw e colaboradores (2017) mostraram que gelatina enriquecida com vitamina C, ingerida 60 minutos antes do exercício, dobra a síntese de colágeno medida por marcadores sanguíneos (P1NP). A revisão sistemática de DePhillipo e colaboradores (2018) confirma o papel da vitamina C como modulador positivo da síntese de colágeno após lesão musculoesquelética — embora o nível de evidência específico para corredores ainda seja limitado.

Protocolo Com Mais Evidência

Quando o suplemento entra como adjuvante, dois esquemas têm dados publicados:

  • 15 g de colágeno hidrolisado + 50 mg de vitamina C, 60 minutos antes do treino de carga (protocolo de Shaw et al., 2017). A janela de síntese aumentada permanece ativa por aproximadamente 24 horas.
  • ~30 g de colágeno + vitamina C imediatamente após o treino, esquema usado em estudos longitudinais de adaptação tendínea.

A Ressalva Essencial

A carga mecânica é o estímulo que orienta a deposição de colágeno. O colágeno ingerido é matéria-prima — não é direção de reparo. Se a suplementação acontece sem o protocolo de carga (heavy slow resistance de Rathleff ou alongamento específico de DiGiovanni), não há sinal mecânico para direcionar o reparo, e o efeito tende a ser nulo.

A suplementação faz sentido como adjuvante ao protocolo de exercício baseado em evidência, especialmente em casos refratários ou em corredores que já estão fazendo o protocolo de carga corretamente e querem otimizar a recuperação. Não substitui alongamento específico, força de alta carga ou controle de progressão de volume.

Custo-benefício realista: o protocolo é seguro (efeitos adversos raros), de custo moderado e ganho marginal sobre o exercício isolado. Se você está fazendo Rathleff + DiGiovanni há 6 semanas e a evolução é lenta, vale considerar somar o suplemento. Antes disso, o exercício é o que muda o quadro.

Como Voltar a Correr Sem Reincidir

O retorno gradual depende da fase em que você está. Em geral, segue uma estrutura como esta:

  1. Estabilize a dor matinal. O critério inicial é conseguir caminhar sem dor reproduzível nos primeiros passos da manhã por uma semana inteira. Antes disso, qualquer corrida tende a inflamar (no sentido sintomático) o quadro.
  2. Comece o protocolo de alongamento de DiGiovanni e o heavy slow resistance de Rathleff simultaneamente, mesmo que ainda haja dor moderada. Esses protocolos são tratamento, não etapa pós-cura.
  3. Trote curto + caminhada intercalada — 3-5 min de trote em ritmo conversacional + 5-10 min de caminhada, 2-3 vezes na semana. Só inicie quando dor diária for ≤3/10 e dor matinal estiver reduzida.
  4. Aumente o tempo de trote progressivamente ao longo de 4-6 semanas, alternando dias com cross-training (bicicleta ou natação preserva fitness sem carga sobre a fáscia).
  5. Volte à corrida contínua começando com 50% do volume pré-lesão e aplicando a regra dos 10% (Nielsen et al., 2014): aumente no máximo 10% por semana.
  6. Mantenha alongamento e força como rotina permanente — não descontinue após “cura”. A fáscia plantar precisa de estímulo crônico para se manter resiliente.

Se a dor reproduzir durante ou nas 24 horas após qualquer etapa, regrida uma fase e mantenha por mais 1-2 semanas antes de tentar avançar de novo.

Mitos sobre Fascite Plantar

  • “Esporão de calcâneo é a causa da dor.” Esporões são achado incidental em ~50% dos casos de fascite plantar — mas também aparecem em ~25% de adultos assintomáticos (Riddle et al., 2003; Singh et al., 2008). A correlação é fraca. Cirurgia para remover esporão raramente é indicada — a evidência aponta para tratamento da fáscia, não do osso.
  • “É inflamação. Anti-inflamatório resolve.” Histologia mostra degeneração colágena sem células inflamatórias clássicas (Lemont et al., 2003). AINEs aliviam sintoma agudo, não tratam a causa. Donley et al. (2007) mostraram que AINEs orais têm efeito limitado e não modificam curso da doença.
  • “Tem que repousar totalmente até a dor sumir.” Programas de carga progressiva (Rathleff et al., 2014) têm resultados superiores ao repouso passivo. Carga é o estímulo que reorganiza colágeno.
  • “Massagem com bolinha cura.” Self-massage pode aliviar agudamente, mas isolada não tem evidência de modificar curso (CPG JOSPT 2014). Pode ser componente de manejo, não tratamento isolado.
  • “Tênis novo resolve.” Mudança isolada de calçado raramente cura. A evidência mais robusta é para combinação alongamento + força + órtese (Martin et al., 2014). Discutimos o papel limitado do calçado em tipos de pisada na corrida.
  • “Fascite plantar é causada por estresse emocional.” Existe correlação populacional entre dor crônica e fatores psicossociais, mas a histologia mostra mecanismo estrutural concreto. Atribuir a “causa emocional” tende a atrasar o tratamento eficaz.

Como Prevenir Fascite Plantar

Para corredores, três frentes têm evidência boa:

  • Mantenha mobilidade de dorsiflexão. O fator de risco número um (Riddle et al., 2003) é dorsiflexão limitada. Inclua na rotina trabalho de panturrilha (alongamento sustentado de 30-60 s, 2-3×/dia) e mobilização de Aquiles. Se a dorsiflexão for muito limitada, vale avaliação com fisioterapeuta.
  • Faça força excêntrica de panturrilha. Heel raise unipodal lento (3-2-3 s), 3×/sem, é a base. Esse mesmo trabalho é o tratamento da fascite estabelecida e funciona como prevenção em quem tem perfil de risco. Lauersen et al. (2018) no BJSM mostraram que treinamento de força é a intervenção isolada mais eficaz para prevenir lesões esportivas em geral.
  • Controle a progressão de volume. A regra dos 10% (Nielsen et al., 2014) vale aqui também. Aumentar volume rápido sobrecarrega a fáscia além da sua capacidade de adaptação. Discutimos essa lógica de overtraining e controle de carga em outros guias do blog.

Para profissões com tempo prolongado em pé (motoristas, professores, profissionais de saúde), dois fatores extras: alternar calçados durante o dia e trocar palmilhas a cada 6 meses se houver perfil de risco já estabelecido.

Quando Procurar Um Profissional

Procure médico do esporte, ortopedista ou fisioterapeuta especializado em corrida nos seguintes cenários:

  • Dor focal pontual no calcanhar com piora noturna ou em repouso — suspeita de fratura por estresse calcâneo (Sormaala et al., 2006). Imagem é o padrão-ouro.
  • Dor lateral ao calcanhar com queimação ou parestesia — diferencial de neuropatia de Baxter (Beltran et al., 2010), exige avaliação neurológica.
  • Dor bilateral simétrica + sintomas em outras articulações — investigar espondiloartropatia (entesopatia), encaminhar reumatologia.
  • Atrofia visível do coxim adiposo do calcanhar — síndrome do coxim, manejo diferente (palmilha de coxim, ajuste de calçado).
  • Sintomatologia que não responde a 6 semanas de protocolo estruturado (alongamento DiGiovanni + força Rathleff) — vale considerar ondas de choque ou avaliação para casos refratários.
  • Sinais de infecção (edema, eritema, febre) — atendimento médico imediato.

Para corredores em geral, a visita ideal antes de iniciar tratamento autônomo é com fisioterapeuta especializado em corrida que saiba avaliar dorsiflexão, força de panturrilha e biomecânica em vídeo.

Como o Continue Aborda a Prevenção

Como em canelite, a fascite plantar tem como principal fator modificável em corredores a progressão de volume. O Continue gera planos de treino que respeitam a regra dos 10% por padrão e inserem semanas regenerativas como parte da estrutura — não como exceção.

O app não substitui avaliação clínica nem prescrição de exercício específico (DiGiovanni, Rathleff). Para corredor com fascite estabelecida, a recomendação é manejo profissional + treino respeitando a fase. O que o app faz é evitar o cenário que cria fascite em quem ainda não tem: aumento abrupto de carga sem janela de adaptação.

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Fontes

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