[O jogo desta semana na coluna Retroatividade não poderia ser outro senão o grande Metal Gear Solid, clássico absoluto do PSOne! André Breder põe todos os seus retrônios para funcionare nos entrega o seu maior texto até hoje. Não deixe de ler, afinal, você provavelmente ainda não tem MGS4 para jogar!]

A série Metal Gear, do gênio Hideo Kojima, já havia feito um certo sucesso nos computadores MSX e até mesmo no NES, mas foi mesmo no PlayStation que a série se tornou famosa no mundo inteiro, graças ao lançamento daquele que é considerado por muitos como o melhor jogo já feito para o console de 32 bits da Sony: Metal Gear Solid, um jogo surpreendente para a época em que foi lançado (1998), com ótimos gráficos 3D, trilha sonora excelente e com um enredo criativo maravilhosamente escrito. Em um adjetivo: cinematográfico.

O modo de jogo de Metal Gear Solid não era novidade para os fãs mais veterenos do trabalho de Hideo Kojima, mas para uma enorme quantidade de pessoas que só foram ter contato com um jogo da série a partir deste lançamento para o PlayStation, o esquema “ação/espionagem” seria uma grata surpresa.

» Nada de sair simplesmente dando tiros nos inimigos

Numa época em que os jogos de ação se resumiam simplesmente em sair matando seus inimigos com armas de fogo, Metal Gear Solid mostrava um novo mundo para toda uma geração de gamemaníacos, onde o mais importante era infiltrar-se na base inimiga sem ser percebido pelos bandidos. Estratégia e cautela são primordiais para se dar bem no jogo, não adiantando nada o jogador simplesmente querer sair atirando em todo soldado que aparecer em seu caminho. Se o jogador agir como se ele fosse o “Rambo”, vai acabar sendo descoberto pelos inimigos, e desta forma acabará ficando em uma situação complicada. Um sonoro alarme irá soar quando o inimigo confirmar a presença do jogador, e reforços surgirão para fazer de tudo para eliminar o espião descuidado, que terá que fugir para escapar da morte certa, procurando um bom local para se esconder.

» Faça uso de diversas técnicas para não ser descoberto

Para não ser descoberto, o jogador poderá fazer os usos de diversas técnicas, como usar caixas como “esconderijo”, esconder-se entre as paredes, fazer barulhos para distrair os inimigos, entre outras ações. Algo que facilita muito a vida do jogador é a pequena tela de radar que aparece no canto direito da tela do jogo, que o jogador pode pode utilizar para ficar de olho na posição dos inimigos que estiverem próximos, assim como dos demais objetos que estiverem na área. À medida que a trama de Metal Gear Solid vai se desenvolvendo, o jogador vai conseguindo vários tipos de armas e acessórios para ajudá-lo em sua missão. Muitas vezes um item que pode ser considerado à primeira vista como algo insignificante, mostrará ser de grande valor quando o jogador descobrir a melhor maneira de usá-lo.

» Prepare-se para longas conversas via rádio

Algo que chama logo a atenção do jogador que não conhecia a série antes de Metal Gear Solid, são as conversas via “Codec” o rádio-comunicador usado pelo agente secreto. Elas servem tanto para que o jogador possa receber dicas sobre o que fazer sobre em sua missão, bem como para receber ordens diretas de seu superior. É por meio dessas conversas “particulares” que a complexa trama do jogo vai se desenrolando com uma grande riqueza de detalhes. Durante o jogo haverá várias frequências disponíveis, pois o jogador terá variados tipos de personagens para se comunicar. As conversas via Codec são realmente primordiais em Metal Gear Solid, porque é exatamente por meio delas (em uma frequência específica) que o jogo é salvo, permitindo assim que o jogador possa continuá-lo depois.

» História

A história de Metal Gear Solid acontece alguns anos depois do jogo anterior, Metal Gear 2: Solid Snake (MSX). O lendário Solid Snake foi tirado da aposentadoria à força pelo seu superior, Coronel Roy Campbell, para cumprir uma missão importante que só ele pode dar conta. Um grupo de terroristas tomou conta de uma base na ilha Shadow Moses, localizada em um arquipélago do Alasca. Tomaram como refém o presidente da ArmsTech, Kenneth Baker, e o chefe DARPA, e ameaçam fazer um ataque nuclear se suas exigências não forem aceitas em 24 horas.

A exigência dos terroristas é ter os restos do corpo do maior soldado que já houve, Big Boss, para analisar o seu DNA e criar um exército de soldados invencíveis. Eles estão sob o comando de seis membros da FOXHOUND: Decoy Octopus, Psycho Mantis, Sniper Wolf, Vulcan Raven, Revolver Ocelot e o chefe Liquid Snake. A missão de Solid Snake é infiltrar a base, salvar os dois reféns e descobrir se os terroristas têm como lançar um ataque nuclear ou não, e ainda impedi-los se o ataque for possível. Durante a missão Solid Snake vai ter muitas surpresas. Uma delas é descobrir é que o tanque bípede Metal Gear ainda existe.

» Gráficos

Metal Gear Solid trouxe gráficos incríveis para sua época. Os personagens do jogo são muito bem feitos, cada qual com suas características únicas. A animação está perfeita! Os personagens executam movimentos bem realísticos, mostrando toda a competência do time liderado por Kojima.

Apesar do jogo se passar no Alasca, não pense que os cenários de Metal Gear Solid serão apenas neve por todos os lados. Durante a aventura o jogador passará por vários locais bem distintos, e nunca haverá a sensação de que os cenários são repetitivos, pois a Konami também caprichou nesta questão. Os cenários são muito bem preenchidos com mobílias, armamentos, máquinas, entre outras coisas. Os (poucos) veículos presentes no jogo são todos muito bem elaborados e totalmente condizentes com a realidade, mostrando que o foco de Kojima foi fazer o jogo mais realístico possível.

Destaque para as “cut-scenes” do jogo, que ajudam a ilustrar melhor a história, mostrando momentos hilários, tensos, tristes e decisivos de maneria perfeita! Tudo é tão bem feito e cheio de detalhes que a sensação é de estar diante da exibição de um filme de ação. Em alguns pontos, como o clássico diálogo com Otacon, são inclusive mostrados trechos de filmes para melhor ilustrar a história.

» Trilha e efeitos sonoros

Durante os estágios iniciais de desenvolvimento, Kojima e sua equipe tiveram um time da SWAT para ajudá-los, demonstrando como é feito o uso de armas, explosivos e veículos. Isto explica a perfeição sonora do jogo em relação aos sons das armas e explosivos, já que os programadores de Metal Gear Solid puderam ter contato com armamentos de verdade. As vozes dos personagens estão igualmente perfeitas; não há um só dublador que tenha feito um trabalho ruim. Todos conseguem expressar muito bem todos os tipos de sentimentos pelos quais os personagens do jogo passam: seja nos momentos tensos, seja nos descontraídos ou mesmo nos tristes, cada dublador consegue dar um show na interpretação de seus personagens! Eu particularmente adoro os chamados desesperados via rádio que os personagens fazem ao personagem Snake morrer no jogo (Snake, pode me ouvir?! Snake?! Snaaaaake!!!). É algo bem trágico (pois o personagem principal acaba de morrer), mas não sei porque eu morro de rir dessas situações, na maioria das vezes.

A trilha sonora é facinante, e os temas variam de acordo com os acontecimentos do jogo. Nos momentos em que o jogador está tentando invadir a área inimiga sem ser percebido a música é tensa; nos momentos de luta a música é eletrizante; nos momentos tristes as músicas são emocionantes, e assim por diante. A Konami, como sempre, é mestre quando o assunto é trilhas sonoras, mas em Metal Gear Solid a produtora japonesa conseguiu se superar, criando músicas que agem no jogo de maneira perfeita, ajudando ainda mais no clima cinematográfico que a aventura idealizada por Kojima possui. Os temas de abertura e encerramento dão um show a parte!

» Jogabilidade

A jogabilidade é totalmente funcional, com todos os comandos podendo ser acionados de maneira rápida e precisa. Os controles de Metal Gear Solid fazem uso de todos os botões do controle do PlayStation: o botão direcional move o personagem; o botão X serve para fazer Snake abaixar e se deitar; o botão O faz o personagem agir e dar socos; o botão “Quadrado” faz com que Snake agarre, derrube, mate ou use armas ou bombas; o botão “triangulo” aciona a visão em primeira pessoa; os botões L1 e R1 acionam itens e armas respectivamente; os botões L2 e R2 servem para abrir os menus de armas e itens; o botão “Select” aciona o rádio e o “Start” pausa o jogo.

» Dificuldade

Há vários níveis de dificuldade para se escolher (very easy, easy, normal, hard e extreme, sendo que este último tem que ser destravado), portanto cabe ao jogador decidir qual nível está dentro de suas capacidades. Os inimigos encontrados durante a missão de Solid Snake possuem uma Inteligência Artificial muito boa, sendo que eles podem escutar até mesmo barulhos mínimos, como os emitidos quando o jogador corre acidentalmente em uma superfície de metal. Até pegadas deixadas na neve ou em poças de água são percebidas pelos inimigos, fazendo que os mesmos imediatamente comecem a vasculhar o local, seguindo o rastro deixado por Snake. Os chefes do jogo são os membros da FOX-HOUND, e cada qual possui suas particularidades e formas de serem vencidos. O jogador terá que enfrentar desde um hábil pistoleiro (Ocelot) até o próprio irmão-gêmeo (Liquid Snake) que travará ao todo três batalhas contra Solid Snake: a primeira pilotando um helicoptéro, a segunda a bordo do tanque bípede Metal Gear, e na terceira e última batalha tudo será resolvido no braço mesmo! O legal é notar que os chefes realmente não são repetitivos, e cada qual exigirá que o jogador descubra a maneira mais eficaz de derrotá-los.

[Embora o nosso amigo Breder não tenha incluído isso no texto, não posso deixar passar aqui a oportunidade de relembrar a genialidade da batalha contra Psycho Mantis, o membro "paranormal" da FOX-HOUND, pois é um dos pontos altos da história não apenas do jogo ou da série, mas também dos games em geral. Para quem não sabe, antes de começar a lutar contra você, Psycho Mantis resolve dar uma pequena amostra dos seus poderes. Quebrando a chamada quarta parede, ele pede para que o jogador ponha seu controle no chão. Nesse momento, para espanto do jogador, Mantis ativa a função rumble do controle, que passa a tremer e andar pelo chão. Em 1998, essa história de controle vibrando ainda era novidade, por isso esse momento é tão memorável.

Depois de tremer o controle "apenas com o poder da mente", Psycho Mantis continua a sua demonstração de poder comentando sobre os saves de outros jogos que estiverem no Memory Card. É claro que ele só comenta sobre jogos da Konami, mas a frase "You like Castlevania, don't you?" ficou marcada na mente de vários jogadores.

Quando a luta começa, enfim, o jogador desavisado certamente vai morrer algumas vezes antes de se dar conta da maior genialidade deste jogo. Psycho Mantis não é um chefe normal, que gaba-se de suas habilidades extraordiárias apenas para morrer em poucos golpes. Ele realmente consegue ler os seus pensamentos e reagir instantaneamente a qualquer é ataque! É simplesmente impossível atingi-lo com qualquer das armas de Snake. Conheço jogadores que desistiram do jogo nesta parte, até que aprenderam o segredo, o truque genial que Kojima colocou na mente de Psycho Mantis: ele realmente consegue prever os movimentos do jogador... desde que o controle do PlayStation esteja na entrada número um. Troque o controle para a entrada do Player 2 e assista o desespero do chefe ao descobrir que não consegue mais penetrar nos pensamentos de Snake. Genial!]

» Curiosidades

- Metal Gear Solid é o terceiro jogo oficial da série (não incluindo o Snake´s Revenge lançado para o NES, que não é considerado como sendo um jogo “canônico”), mas Kojima decidiu não colocar um “3? no título do mesmo, ao invés disso colocou apenas a palavra “Solid” no final. O motivo para isso é que os dois primeiros jogos da série eram muitos obscuros e poucos gamers os conheciam de fato.

- É engraçado notar que o título das sequências posteriores passaram a ter sempre a palavra Solid no final, mas agora com o adicional de um número que marcaria uma nova sequência para a série.

- Inicialmente Kojima queria que os jogadores pudessem ter uma grande interação com objetos encontrados em Metal Gear Solid, assim como a possibilidade de esconder os corpos de inimigos “abatidos” em compartimentos. Mas isso só foi possível de ser concebido em Metal Gear Solid 2: Sons of Liberty, lançado alguns anos depois para o PlayStation 2.

- Metal Gear Solid teve uma grande campanha de promoção, que fez o jogo aparecer em diversas revistas e canais de TV mundo afora. O valor gasto com tudo isso foi de mais ou menos 8 Milhões de dólares.

- Metal Gear Solid ganhou uma versão melhorada para GameCube em 2004.

» Conclusão

Metal Gear Solid é com todos os méritos um dos melhores jogos lançados para o PlayStation, sendo que para muitos este foi o melhor título do console de 32 bits da Sony. Ele foi sem dúvida o pilar para a consolidação de uma das série mais cultuadas atualmente. Se hoje milhares de jogadores tem no Sr. Hideo Kojima a figura de um gênio do video game, muito se deve ao seu excelente trabalho em Metal Gear Solid.