
[Faltando seis minutos para o fim do dia, entra no ar a segunda resenha da nossa Semana das Resenhas aqui no Continue. Mas não é só isso! Esta também é a primeira resenha escrita pelo Pablo Raphael para este blog. Na verdade é a primeira escrita por qualquer pessoa que não seja o Fabio Bracht, que acaba de fazer referência a si mesmo na terceira pessoa.]
No passado, os computadores eram fortalezas sombrias habitadas pelos jogos de estratégia, RPGs ocidentais e games de tiro em primeira pessoa. Lá do alto, seus usuários, temidos como os verdadeiros core gamers, entusiastas que passavam dezenas de horas entre vasculhar dungeons, mandar bala em nazistas pixelados ou demônios marcianos e planejar a conquista mundial com seus exércitos, riam dos garotinhos que se divertiam pulando em cascos de tartaruga ou brigando nos fliperamas em esquinas suspeitas. “Rá! Olhe lá a plebe com seus controlezinhos de seis botões!”, dedilhavam os senhores feudais em seus teclados padrão ABNT2 enquanto atiravam as embalagens de seus famigerados kits multimídia contra os cartuchos dos jogadores de videogame.
O tempo passou e o avanço tecnológico inevitável diluiu o antigo poder dos PCs. Praticamente todos os símbolos de seu reinado migraram para os consoles e assim boa parte da raça dos core gamers também se adaptou e partiu para os videogames. Mas um segmento ainda resiste, irredutível, à mudança. O dos jogos de estratégia. Não mais um império como outrora, mas um nicho persistente e fiel. Alguns vão argumentar que há jogos de estratégia muito bem adaptados para a atual geração de consoles. Concordo. Mas quantos jogos de estratégia desenvolvidos especificamente para consoles temos por aí? Não muitos. Jogos bons então, menos ainda.
Encarar a tarefa de levar um gênero tão representativo não só de uma plataforma mas de um tipo de jogador para seu antigo rival, é uma tarefa inglória para qualquer designer de jogos. Muitos não ousariam. Mas Sid Meier, o criador da franquia Civilization, tão respeitado em seu segmento quanto Will Wright, Kojima e Miyamoto nos seus, tem cacife para tentar. E foi o que ele fez, com Civilization Revolutions, título desenvolvido para o PS3, Wii, Xbox 360 e com uma versão para o portátil Nintendo DS. Eu joguei Revolutions no Xbox 360 e o resultado da experiência de Sid Meier você confere depois do continue.
Vamos nos colocar no lugar de Sid Meier e da desenvolvedora Firaxis durante a criação de Revolutions: o desafio era preservar a essência do clássico jogo de estratégia por turnos e, ao mesmo tempo, alinhar a experiência ao estilo dos jogadores de console. Inovar muito ou simplificar demais deixaria os seguidores fiéis desapontados. Não mexer na jogabilidade significaria uma experiência desagradável para a interface limitada dos controles dos consoles. Um dilema que permeou todo o desenvolvimento do novo Civilization.
Logo na abertura, temos uma bela sequência em CG que nos coloca diante da proposta do jogo: levar nossa civilização dos primórdios da Humanidade até a dominação global, seja pela supremacia militar, econômica, cultural ou tecnológica.
Na falta do video de abertura, vai o trailer que é quase igual
Não há uma campanha solo com enredo como nos jogos da série Age of Empires ou Command & Conquer, por exemplo. Ao contrário, você apenas escolhe uma entre 16 civilizações disponíveis e a dificuldade, e o jogo gera um mapa aleatório para a partida. Cada civilização tem seus próprios bônus iniciais e outros que adquirem com o passar das Eras, além de unidades exclusivas. Dependendo do seu estilo de jogo, pode preferir uma ou outra. Os alemães são ótimos para a guerra, os romanos para o desenvolvimento rápido de várias cidades e assim por diante. De uma forma geral, os bônus de cada povo são equilibrados e afetam mais a sua maneira de jogar do que o balanceamento da partida.
Cada civilização é representada por seu líder e nem eles nem seus povos seguem um contexto histórico rígido. Temos Alexandre, da Grécia, Cleópatra dos egípcios, Bismark da Alemanha, Lincoln dos Estados Unidos e Gandhi da Índia, entre outros. Todos eles e seus acessores militares e diplomáticos, além de uns bárbaros sul-americanos, africanos e nórdicos, são representados em animações divertidas que inclusive interagem entre si na tela com mudanças de humor de acordo com as suas decisões.

Enfrentar os bárbaros fortalece as unidades e dá prêmios!
Durante a partida você vê a preocupação em criar comandos ágeis e adequados ao controle do videogame. Mas devo admitir, leva um tempo para pegar a prática e navegar pela tela sem fixar o cursor nas suas unidades, e é uma experiência desagradável. Às vezes você se esquece de algum exército inativo em um canto distante do mapa e sente falta de uma opção para visualizar essas unidades, mas de uma forma geral, os comandos são precisos o suficiente para não incomodar a experiência.
O fato de ser um jogo em turnos, com resolução automática das batalhas, com certeza suavizou o trabalho de Sid Meier quanto à movimentação das unidades na tela. Os acessores cuidam para que você se mantenha a par dos acontecimentos na política mundial e do andamento da partida, dão conselhos e são bastante úteis no começo, até pegar o jeito do jogo.

Desenvolver novas tecnologias primeiro é garantia de vitória
Outro ponto que pode agradar alguns e deixar a desejar para outros é a questão do microgerenciamento. Sabe como é: jogos de estratégia, principalmente os que não são focados somente na questão militar, envolvem doses cavalares de coleta de recursos, construção e manutenção de estruturas como fazendas, fábricas, usinas nucleares etc. Para adequar a experiência aos jogadores de videogame, Meier tornou as partidas mais rápidas.
Uma sessão de Civilization Revolutions dura em torno de quatro horas de jogo. Para isso, boa parte do microgerenciamento foi limado. Você decide onde fundar as cidades, o que construir, quais unidades fabricar mas não há aquela necessidade de controlar cada peão, determinar manualmente o que fazer em cada pedacinho do território ocupado. Eu gostei disso mas pode ser que algumas pessoas prefiram o estilo tradicional.
Há também as Wonders — as Maravilhas do Mundo –, que não se limitam àquelas da antiguidade como as Pirâmides e o Colosso de Rodes, mas também na forma castelos medievais e, as melhores, as maravilhas do mundo moderno: Internet, globalização, Programa Apollo, Projeto Manhattan… Pena que só dá para construir uma bomba atômica. Disparar sua ogiva nuclear e assistir seu vôo ao redor do globo até atingir a cidade inimiga não tem preço.

Administrar as cidades através dos menus é fácil e rápido, mas nem todos vão gostar
Civilization Revolutions tem muitos detalhes bacanas como o formato esférico dos mapas, a possibilidade de nomear algumas regiões quando são descobertas, a bem produzida neblina de guerra, a trilha sonora incidental e principalmente, a capacidade de ser tão simples ou complexo quanto for o interesse do jogador. Em uma primeira instância, lembra muito uma partida de WAR. Movem-se as peças, domina-se o território, avança-se os exércitos e assim por diante. Mas se você gosta de jogos de estratégia por turnos, vai encontrar toda a variedade de terrenos, posicionamentos e bônus ou penalidades adicionais, enfim, todo tipo de detalhes que tornam a jogatina realmente estratégica que são capazes de prender os adeptos do jogo por horas e mais horas, partida depois de partida em busca da dominação mundial.

Interessou? Compre no MercadoLivre ou no Submarino
!
Sid Meier
Nascido em Detroit, em 1954, Sid Meier é um dos mais respeitados criadores de jogos de todo o mundo. Fundou a Microprose junto com Bill Stanley em 1982 e lá criou a franquia que o tornou reconhecido internacionalmente, Civilization. Meier deixou a Microprose anos depois e em 1996, fundou a Firaxis Games, ao lado do veterano executivo da indústria de games, Jeff Briggs.
Além de Civilization, Meier criou vários outros jogos, como Sid Meier’s Pirates, Railroad Tycoon, alguns dos primeiros simuladores de pilotagem — como F-15 Strike Eagle –, a versão para PC de Magic: The Gathering, os RTS Sid Meier’s Gethisburg! e Antietam! que focam a Guerra Civil norte-americana, Colonization, Alpha Centauri, SimGolf e outros.
Sid Meier foi a segunda pessoa a ser incluída no Hall da Fama da Academia de Artes e Ciências Inteativas. A primeira foi Shigeru Miyamoto, da Nintendo. O designer também aparece em vários de seus jogos e até mesmo há referências a ele em jogos de outras produtoras: em Major League Baseball 2K7 há um treinador chamado Sid Meier, por exemplo.
O primeiro Civilization foi um jogo de estratégia por turnos, criado por Sid Meier para a Microprose em 1991. Desenvolvido para rodar no tataravô do Vista, o DOS, a série Civilization passou por diversas encarnações em muitas plataformas. Nos PCs, há versões para Windows, Mac, Linux e até para o computador top dos anos 80, o Amiga. Já houve uma versão para N-Gage, PlayStation e Super Nintendo. A série têm uma legião de fãs nos PCs.