
A proposta da loja PSP Mini é de ser praticamente uma AppStore (a loja de aplicativos e jogos da Apple para o iPhone e iPod Touch, para os aliens): ter jogos pequenos, por preços pequenos, chamando a atenção de desenvolvedores pequenos. Só que as duas têm uma diferença crucial entre elas: todos os jogos precisam receber uma qualificação da ERSB antes de serem lançados na PSP Mini, senão eles serão automaticamente enquadrados na categoria mais “mamãe esse jogo é terrível pro seu filhote”, vulgo Adults-Only.
As razões da Sony são totalmente aceitáveis, afinal é importante que os jogos sejam filtrados de acordo com seu conteúdo para que os consumidores possam apropriadamente selecionar o que consumirão. Se eu fosse uma evangélica gamer e comprasse um jogo de Jesus pra descobrir no meio do caminho que o jogo mutila apóstolos o tempo todo, eu iria ficar irritada, e nisso as qualificações são muito importantes. Até mesmo porque, já que curto um sangue voando, quando eu vejo “Blood and Gore” escrito na capa de um jogo ele ganha pontos no meu conceito.
O ponto negativo é o preço. Desenvolvedores pequenos não tem em seu poder o famoso cheat-code de dinheiro que possibilita jogos como Gran Turismo existirem, e a ERSB cobra para qualificar os jogos. Segundo o desenvolvedor do jogo Fieldrunners Sergei Gourski, “Você precisa investir dinheiro em kits de desenvolvimento e nas qualificações para o seu jogo, o que custa bem mais do que nós tínhamos imaginado”. A ERSB afirmou que a qualificação dos jogos com custo de desenvolvimento menor que 250 mil dólares custa “apenas” 800 dólares; mas esse tipo de dinheiro não é exatamente um troco de pinga pra desenvolvedores menores. Imagina gastar um monte de dinheiro pra depois seu jogo encalhar? O risco é bem alto.
Em compensação, o custo de qualificação torna a PSP Mini uma loja muito mais seletiva. Muitos desenvolvedores mais sérios estão fugindo da AppStore pois simuladores de peido como Fart Machine e Fart Cushion vendem muito mais que seus títulos de maior qualidade e maior custo de desenvolvimento; sem dúvida o maior problema da AppStore é ter conteúdo demais. “O alicerce do sistema de vendas da Apple começou a mostrar falhas”, afirmou Kimmo Vihola, desenvolvedor do jogo Minigore. Ele também afirmou que a Sony é muito mais rápida em analisar aplicativos para sua loja, levando de três a cinco dias para a aprovação enquanto a AppStore pode demorar tanto alguns dias quanto até seis semanasnas.
Infelizmente, bons jogos não são exatamente baratos de se desenvolver. Precisa-se de uma equipe razoavelmente grande com programadores, artistas, testers, e essa galera toda precisa ter seu salário pago. Muitos desenvolvedores estão abandonando a plataforma da Apple pois a falta de seletividade dos títulos fazem com que os clientes achem um absurdo pagar 10 dólares num jogo legal, enquanto na PSN ou no Steam, como a gente vê acontecendo quase toda semana durante os Weekend Deals) se aparece algo legal por 10 dólares, os usuários saem trocando tapa dizendo “EU QUERO AGORA!” A AppStore, com sua premissa de dar chance aos pequenos, hoje é só interessante para os desenvolvedores de garagem e seus barulhos de flatulência.
Outro ponto absurdamente negativo da AppStore é a pirataria. Com tanto jailbreak rolando solto por aí, as pessoas preferem piratear a pagar 5 doletas num jogo legal. Michael Schade, do estúdio Fishlabs, criadores de Galaxy on Fire (que também dá o ar da graça no Zeebo), afirmou que o último lançamento do estúdio, Rally Master Pro 3D, teve em torno de 95% de pirataria em seu lançamento. Os mecanismos de proteção usados pela Sony são bem mais eficientes no que diz respeito à conteúdo de download.
Acho que a ERSB poderia diminuir um pouco o preço de ratings de jogos com custo de desenvolvimento abaixo de 100 e 50 mil dólares, aliviando o orçamento dos desenvolvedores menores; e a AppStore poderia implementar uma área de “aplicativos premium”, selecionados de maneira mais rígida quanto ao seu conteúdo e funcionamento, guiando os usuários (tudo o que temos a respeito disso até hoje são rumores). A Apple também precisa inventar alguma maneira de parar a pirataria desenfreada que rola em sua plataforma. Precisamos de um equilíbrio entre a garagem e os pequenos, e se esse equilíbrio for alcançado, todos sairão ganhando com seus respectivos videogames. Só pra frisar pra quem ainda não entendeu: o iPhone é tão videogame quanto o PSP.
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