Outra noite estava eu indo para casa quando me encontrei com um amigo de longa data. Vamos chamá-lo de Piuí, para preservar sua identidade. Cara esperto, inteligente, produtor de vídeo. Conversa vem, conversa vai, acabei puxando um assunto que foi discutido aqui no Continue tempos atrás. A questão da longevidade dos games. E levamos o tema para outras mídias, como a música e o cinema. Lá pelas tantas, ele falou uma coisa que me perturbou:
“Filmes, videogames… é tudo entretenimento. E isso não muda a vida de ninguém.”
Será que não? Tudo bem, é só um jogo. É um hobbie. Uma diversão. Tem quem diga que é uma válvula de escape das pressões do cotidiano. E há aqueles que enxergam os games como um estilo de vida.
Mas será que eles não são mesmo capazes de mudar as nossas vidas?
Conheço um cara que chega em casa e vai ver novela. Segundo ele: “Eu penso o dia inteiro no trabalho. É uma profissão que exige muita concentração e tomadas de decisão. Então quando chego em casa, não quero pensar. Aí eu sento e assisto uma novela. Desligo meu cérebro por uma hora. Depois eu tô relaxado e vou jogar videogame, fazer algo melhor”. Isso pra mim é escapismo, o desligamento da realidade diária.
Conheço gente que respira videogame. Que joga todo dia, que lê e escreve sobre o assunto, acompanha o mercado internacional, os lançamentos, as novidades. Acho que uma parte considerável do pessoal que frequenta o Continue se enquadra nessa categoria. Isso é encarar o hobbie como estilo de vida.
Mas até que ponto o nosso hobbie afeta a nossa vida? Será que é uma parte desligada do resto? Ou influencia nosso comportamento? Você seria diferente se não jogasse videogame? Os maiores detratores dos jogos eletrônicos os acusam de afetar nosso comportamento, ensinar técnicas de guerrilha ou induzir ao crime e a violência. Tem também aqueles cientistas que dizem que os videogames melhoram nossa coordenação visual-motora (hands-eye coordination), que me parece algo útil se você é um operário em uma fábrica na época da Revolução Industrial, como no filme Tempos Modernos. Mas e daí?
Fiquei com todas essas questões na cabeça. Eu pessoalmente até aceito que os jogos sejam uma parte mais “leve” da minha vida. Mas qual a importância deles? Os games já mudaram algo na minha vida? Talvez os games de RPG tenham me estimulado à melhorar meu inglês, embora eu sempre coloque a culpa disso nos bons e velhos RPGs de mesa. Ler a Ação Games quando eu era criança influenciou em algumas escolhas profissionais tantos anos depois, eu acho. Detalhes pequenos, mas que fizeram alguma diferença. Mas teriam os jogos eletrônicos o poder transformador que os livros têm? Poderia um videogame transmitir idéias, correntes filosóficas e moldar o pensamento e o comportamento das pessoas? Lembro do Kojima afirmando que ele gostaria de ver violência e guerra mais parecidos com o mundo real nos jogos, como uma forma de conscientizar a juventude da barbárie que representam. Será que esse papel de mudar a sociedade se encaixa no escopo dos jogos eletrônicos?
Certamente os games fizeram a diferença na trajetória de garotos como Hideo Kojima ou Cliff Blezinsky. Mas e caras normais como eu e você, leitor do Continue? Os videogames mudaram a sua vida de alguma forma? Acrescentaram algo que talvez não estivesse aí hoje sem eles? O que você pensa sobre isso tudo?