Videogame: a coisa mais importante entre as menos importantes

Os dois de vocês que lêem meu blog – o No Controle, mantido juntamente com Gui Stadler – sabem: não foram poucas as vezes em que eu bati nessa tecla, e também não foram poucos os comentários que eu comecei com “não vou entrar na questão da violência nos jogos porque tenho que fazer um post só pra isso”. Nunca cheguei a escrever algo mais elaborado sobre o assunto, porque preferia ganhar um pouco de credibilidade antes de postar um texto polêmico desses. Acontece que o Fabio sugeriu que eu escrevesse uma Discussão de Fim de Semana tangenciando a recente polêmica sobre Mass Effect.
Então tá aí, finalmente eu exponho minha opinião, e depois abro espaço para que vocês comentem, discordem ou me chamem de lindo nos comentários. Tenham em mente que a discussão pode se tornar mais política que gamer, então se você fica facilmente ofendido por sangue, sexo ou teorias acerca do Tio Sam, não continue lendo.
Não é de hoje que o sexo nos videogames gera polêmicas desnecessárias, mas recentemente elas têm atingido um nível de escrotidão nunca antes alcançado, provavelmente por causa do aumento do realismo dos jogos. Cenas sensuais não são mais uns poucos pixels pulando aleatoriamente. O que me deixa indignado é que, ao menos em comparação com o sexo, a violência nos videogames, em geral, passa despercebida. Enquanto um par de tetas poligonais já gera cortes, proibições e passeatas, é preciso muito mais do que um tiro virtual para que isso aconteça com jogos violentos. Vide GTA: San Andreas, que tava vivendo em relativa paz com seus assassinatos, roubos e tiroteios até descobrirem que continha um minigame de trepar.
Aqui quero deixar claro um ponto, antes que venham xingar minha mãe nos comentários: sou contra atos como a atual proibição de Counter-Strike por parte de alguns desocupados. Acredito na liberdade e no bom senso das produtoras, e principalmente no bom senso dos jogadores que sustentam essas produtoras. Afinal, no momento em que começa a repressão, o pessoal anti-violência passa a ser “mau” e os criadores de jogos como Manhunt passam a ser “bons” nas páginas maniqueístas da mídia de jogos e, conseqüentemente, nas nossas próprias opiniões.
Explicado isso, minha questão é: por que sangue pode, mas sexo não?
A resposta, como eu já disse acima, pode ser mais política e menos relacionada aos jogos em geral. Comecemos pelo sangue. Os EUA, o maior produtor de jogos violentos até onde meus 13 ou 14 anos de jogos lembram, é um país em guerra constante. Guerra por poder, guerra por petróleo e até a safadíssima guerra pela guerra, afinal a forte indústria bélica desses caras não pode simplesmente acabar da noite para o dia. As armas precisam ser usadas, ou esse mercado bilionário vai à falência. No entanto, cada governo desse país precisa que a sociedade aceite e apóie suas batalhas, e não venha com esse papo de parar conflitos pazeamor e essas coisas que qualquer outra sociedade normal apoiaria. Coisas assim são rotuladas de “pensamento comunista/anarquista/hippie/terrorista”, dependendo da época em questão.
Como disse certa vez o presidente Bush:
Every nation, in every region, now has a decision to make. Either you are with us, or you are with the terrorists.
Tradução livre: ou você apóia nossa guerra, ou você é do mal.
Voltando para os games, quer melhor meio de fazer a cabeça do povo do que com filmes, jogos ou programas tendenciosos de TV? Uma coisa é você ver na televisão o presidente falando que a guerra é necessária, outra bem mais efetiva é o cidadão ser bombardeado diariamente com histórias emocionantes sobre aqueles heróis que sobreviveram ao ataque vietnamita, sobre o destemido agente secreto que salvou o mundo de uma arma russa de destruição em massa ou sobre os corajosos guerreiros que largaram a Fat Man sobre Nagasaki em 1945. Com jogos, a coisa funciona ainda melhor: você é o soldado, o herói, o agente secreto. É quem faz as coisas acontecerem.
Destrinchando minha opinião, para quem ficou achando que eu visto “I love Jack Thompson” e penduro uma cabeça de alho em cada cópia de CS que vejo: não, pessoal, videogames não tornam você um assassino. Mas também não são 100% gente-boa, por mais que a gente queira achar que são. Analisando friamente, os games, assim como os filmes de guerra, justificam e banalizam a violência, de modo que você não se indigne a cada nova guerra que seu governo promover. Você pode achar que tem capacidade de discernimento para distinguir ficção de realidade, mas eu acho que é muita presunção de nossa parte pensar que sabemos que capacidades temos ou não. Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonham nossas vãs publicações de games.
Um exemplo bocó, mas útil. João vive em um mundo paralelo onde não há filmes ou jogos de guerra. Guerra é algo sobre o qual ele leu em um livro de história, mas não pensou que ainda existisse. Um dia João liga o noticiário e vê seu presidente anunciando que está mandando tropas para atacar o Iraque. A reação do sujeito deve ser algo como: “Não, qual é? Quer dizer que os malucos vão SE MATAR por causa de desavenças políticas? Mas que raio de mundo é esse?”. A partir daí, João provavelmente vai sair pra protestar, bombardear a Casa Branca ou montar uma banda emo. Qualquer coisa, menos achar que essa guerra faz sentido.
Onde entra o sexo, depois dessa divagação toda sobre violência nos games? O sexo nada mais é do que algo bem menos feio do que a guerra, mas também bem menos útil sob o ponto de vista de um governo belicista. Uma coisa é você querer que seu povo apóie sua guerra, e a entenda do jeito que você deseja; outra é querer que seu povo trepe. Em uma sociedade menos torta, o natural é que guerra e violência fossem muito mais “errados” do que sexo, de modo que um seio nu levasse classificação 14+, enquanto tiros sem sangue garantiriam um 17+. Infelizmente, não é o que acontece quando se tem um país em guerra, onde a anti-violência é algo perigoso, no topo do mundo. Nossa cena gamer, filmer e a própria ESRB estão de ponta-cabeça.
Para ilustrar, imaginemos agora um outro mundo paralelo, onde a população do país mais poderoso do planeta está diminuindo perigosamente. Se faz necessária uma “campanha de procriação”, por assim dizer. De repente, alguém percebe que não há nada melhor para o chamado Projeto Coelho do que uns jogos que ativem a libido gamer e que acabem com o tabu do sexo, de modo que os games sexuais começam a pipocar pelas prateleiras. Os que não contém sexo explícito têm insinuações ou, no mínimo, um peitinho dando sopa. Sexo vira algo comum, enquanto qualquer referência falada a armas de fogo passa a render classificação Mature a um jogo.
Mas esse é um mundo fictício, e não o real. Nenhum governo aqui precisa de crescimento na taxa de natalidade, portanto sexo pode muito bem continuar sendo tabu, ao contrário de guerra.
Ou você lembra de ter visto alguém reclamar de Call of Duty 4: Modern Warfare? Que tal Ghost Recon: Advanced Warfighter, ou Battlefield 2? Para a infame Liga das Senhoras Católicas, são apenas jogos sobre heróis nacionais, ruim mesmo é sexo. Lembram do que aconteceu com Fahrenheit, aquele adventure francês de 2005? Nos EUA, cortaram as cenas de sexo, deram uma classificação Mature e mudaram o nome. Mature, amigo, a mesma classificação dos violentíssimos Gears of War e Manhunt 2. Agora, o que aconteceu com No More Heroes mesmo? Pois é, a única versão com sangue é a dos Estados Unidos.
A sua opinião
Então, acho que era isso. Não quero que vocês simplesmente tomem como certo o que falei aqui, e nem que ignorem completamente. Minha intenção era expôr minha opinião sobre o assunto sexo e violência nos games, e mostrar que a situação é bem mais complexa do que “tem um advogado drogado lá que quer proibir o jogo tal” ou “jogos não influenciam em nada meu comportamento”. Bom, agora o espaço é de vocês: discordem, concordem, exponham suas teorias. Nos falamos nos comentários!

Porra Duke, larga essa vida pecaminosa e vai lá matar uns caras.
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