Quando Guitar Hero saiu, quase duas décadas atrás – bom, foi em 2005, mas parece, né? –, eu lembro perfeitamente bem que, passada a empolgação inicial de ser um mestre das seis cordas/cinco botões, o tópico mais frequente nos papos sobre o jogo era se teríamos Drum Hero, Bass Hero, Vocal Hero etc. Como éramos bobinhos.
Dois anos depois a Harmonix juntou todos esses Heroes numa mesma caixa e, em vez de um seriado medíocre, nos deu o jogo que talvez seja o mais culturalmente relevante dos últimos anos.
Eu não tive a oportunidade de jogar o primeiro Rock Band, mas a segunda edição, que saiu em novembro passado, já está nas minhas mãos há cerca de um mês. Acredito que seja tempo suficiente para formar uma opinião concreta e, principalmente, que esteja livre da empolgação inicial.
Essa opinião você confere depois do continue, como sempre.

[+] More Than a Feeling – Rock Band 2 é mais do que um jogo. Quando eu o recebi pelo Sedex, a sensação foi completamente diferente de qualquer outro jogo que eu já tenha recebido. A caixa dele é quase três vezes o tamanho da caixa do próprio Xbox 360. E, de fato, a sensação que eu tenho até hoje é que os meus consoles não portáteis são o Wii, o 360 e o RB2. Ele definitivamente é mais do que um simples jogo, é uma plataforma de música interativa.
[+] The Sound of Silence – A primeira impressão que eu tive da guitarra que acompanha o pacote foi simplesmente não acreditar em como ela era silenciosa. A barra de palhetada, que tornava a jogatina dos primeiros Guitar Hero não recomendável na presença de alguém que estivesse dormindo a menos de três cômodos de distância, antes fazia “TEC TEC TEC TEC”. Agora faz “ “. Sério, é virtualmente inaudível – e completamente macia e resistente. Os botões do pescoço fazem um pouco de clique, mas nada que incomode o sono de um bebê. A bateria, por outro lado, é inegavelmente barulhenta – afinal, você está espancando pedaços de borracha dura com pedaços de madeira. Eu não diria, porém, que ela é barulhenta demais. É a quantidade certa de barulho. Além do mais, pelo que eu me informei, ela é bem mais silenciosa que a bateria do primeiro Rock Band (e com um pedal bem mais resistente também, já que o do primeiro quebrava fácil).
[+] Cold Hard Bitch – Uma das maiores críticas dos fanboys de GH é que RB é muito fácil. Bem, eu quero vê-los tocando Lump, Everlong, Hammerhead ou Battery no expert. Não apenas elas são difíceis, como são também bem próximas daquilo que eu imagino que seja a maneira “real” de tocá-las, ao menos no que diz respeito ao ritmo da caixa/bumbo, que é o que mais importa. Na guitarra/baixo eu não achei a dificuldade tão inferior ao Guitar Hero III, por exemplo. É um pouco mais fácil porque as músicas em si são mais simples, com riffs que não necessariamente são uma ameaça aos seus dedos, mas são divertidos. E para os masoquistas, sempre tem Malmsteem na Rock Store. Para a parte vocal é simples: no Easy é impossível morrer a não ser que você não cante, e no Expert você tem que saber a letra de cor e ter voz pra cantar aquela música. Em resumo, eu achei a dificuldade de RB2 simplesmente ideal.
[+] Magical Mystery Tour – Enquanto em nos Guitar Hero até o III o modo de progressão era bem “arcade” (passe uma música, jogue a próxima; repita até terminar), em Rock Band 1 o modo Tour foi inaugurado, e em RB2 ele foi expandido e melhorado. Você começa na sua cidade natal, tocando num barzinho fim de carreira (apesar de você estar começando a sua), e cada música completada te dá grana e um número de fãs que varia de acordo com a dificuldade escolhida para cada música e, claro o seu desempenho nela. O mais legal é que o jogo evita ficar repetitivo ao jogar eventos aleatórios antes de alguns shows. Às vezes é um cara da marca X de amplificadores que vai estar na platéia e, se você for bem, ganha um patrocínio; ou você pode ser convidado a tocar em uma festa da alta sociedade, onde vai ganhar o triplo de grana mas quase nenhum fã. E assim por diante. Isso sem contar a possibilidade de contratar um membro para a equipe, como um promoter, tatuador, estilista ou empresário, o que causa efeitos diferentes. O que não quer dizer que o jogo virou um RPG, porque todas essas coisas têm pouco impacto no seu progresso — desde que você toque bem, não tem como não conseguir avançar. Uma última coisa bacana: fora você, a sua banda pode ser completada por três CPUs ou por três pessoas quaisquer, presencialmente OU online.
[+] Another Round – Além do modo Tour, que já é longo, looooongo, ainda tem mais dois modos de progressão que tornam tudo ainda mais variado. O Tour Challenges é uma progressão de desafios temáticos com dificuldade crescente. É parecido com o modo de progressão dos primeiros Guitar Hero, mas ainda mais avançado por causa da natureza temática da coisa e da integração com as músicas que você comprou. O outro é o Battle of The Bands, que consiste em desafios, também temáticos, incluídos quase que diariamente pela Harmonix, onde a sua banda compete diretamente com as outras do mundo inteiro (especialmente as bandas dos seus amigos) pelo maior score. Os dois modos são viciantes.
[+] Rock ‘n Roll All Night and Party Every Day – Falando em multiplayer, preciso ser curto e grosso nessa opinião: Rock Band 2 é o jogo para se ter disponível em uma festa. O multiplayer offline não é livre de falhas, mas é um dos melhores que eu já joguei. Noobs jogam ao lado de experts e todo mundo se diverte. Especialmente se alguém topar cantar Master Exploder.
[+] Let There Be Rock – Não tem como não falar do motivo maior por eu ter escolhido RB2 e não Guitar Hero World Tour: o repertório de músicas disponíveis para compra. De Weezer a AC/DC, de Blondie a Alanis Morissette, de Foo Fighters a Yingwie Malmsteem, de Muse a The Killers, de Blink 182 a Judas Priest e Dream Theater e Linkin Park e Red Hot Chili Peppers e The Police e sei lá mais quantas dezenas de bandas tem lá. Está tudo lá, para todos os gostos.

[-] Virtual Insanity – Infelizmente, por mais que o multiplayer offline seja garantia de festas animadas, pessoas felizes e dentes 239% mais brancos, o mesmo não não pode ser dito do modo online. Quando quer jogar com estranhos, o que é a situação menos problemática, muitas vezes você fica mais de dois minutos esperando um oponente. Quando quer jogar com amigos… boa sorte. Não é possível entrar a qualquer momento na banda de algum amigo que esteja jogando online, apenas quando eles estão no lobby, e isso limita muito mais do que parece. A única maneira fácil de rolar um jogo entre amigos é se ambos abrirem um chat por voz e se combinarem direitinho, e isso seria muito trampo mesmo se o meu headset funcionasse. Isso mesmo: o meu não funciona! Por quê? Porque é o modelo antigo, com o plug curvado que se encaixa na base do controle, e os instrumentos não oferecem esse encaixe. No RB1 vinha um par de adaptadores, mas no dois não. Ou seja, nada de headset para o Fabio. Nada de combinar um multiplayer para o Fabio.
[-] Come And Buy My Toys – Sejamos sinceros: esses jogos de banda completa são caros até para os gringos ricos. Para nós pobre mortais – e pior, brasileiros –, sequer cogitar a possibilidade de comprar um desses já é atestar a sua devoção aos bens materiais e o resto que se foda. Ou algo assim. Mas esse nem é o problema (se você tem dinheiro para isso, ótimo, seja feliz como eu fui). O problema é o DLC. Não vá achando que você vai comprar o jogo e era isso, porque ele deveria vir com um aviso: “Atenção: a compra deste jogo causa um inevitável aumento exponencial no seu gasto com Microsoft Points”. Não dá pra fugir. Você entra na Rock Store, vê um Track Pack ou um álbum completo de uma banda que gosta e PUFF, lá se foram 1600 MS Points. E, claro, ainda tem os mais de 100 reais que você vai gastar com as pilhas recarregáveis extras que vai precisar – tanto a guitarra quanto a bateria usam três AA cada um.
[-] Enough Space – Você tem espaço na sala para um cara sentado em frente a uma bateria de brinquedo e no mínimo outras duas pessoas jogando em pé? Todos a uma distância razoável da TV? Você mora em apartamento e tem vizinhos chatos com a questão do barulho? Todas essas são questões que você precisa responder corretamente para poder aproveitar RB2 do jeito que ele deve ser aproveitado.
[-] Beat It – Sinto dizer, mas uma das funções que eu mais tinha interesse acabou se tornando o grande FAIL do jogo em relação à bateria: o Drum Trainer. Na teoria, é muito massa. São dois modos (Beat e Fill) que você pode usar para treinar batidas e firulas na bateria. Coisas que você pode inclusive aproveitar no caso de estar tentando aprender a tocar bateria de verdade. O problema é que, não sei como, a precisão desses modos ficou super zoada. Nas batidas mais rápidas, o jogo se perde completamente em apontar exatamente quais notas eu acertei e quais errei. O jogo acaba discordando de mim em várias notas que eu tenho certeza que acertei. E não é mimimi de noob, porque fora do Drum Trainer isso nunca acontece.
Depois dessa quilométrica resenha (e olha que esse novo sistema era pra ajudar a diminuir o tamanho dos textos…), só dá pra bater de novo nesta tecla: Rock Band 2 não é um jogo para todo mundo, por vários motivos além do jogo, como preço e condições adequadas para jogar. Mas, se for pra você, eu não poderia recomendar mais. Eu diria com relativa facilidade que é o melhor jogo que eu já tive na vida.
Rock Band 2 é um jogo da Harmonix, publicado pela MTV Games, distribuído pela EA Distribution e lançado dia 14/09/2008 para Xbox 360 (19/10 para PS3 e 18/12 para PS2/Wii). O jogo foi explorado em todos os modos de jogo por mais de 30 horas, no Xbox 360. Compre no Mercado Livre.
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