Ao contrário do que fez durante o desenvolvimento do primeiro Fable, Peter Molyneux, o homem-hipérbole, evitou uma overdose de hype para Fable II. Não falou demais sobre coisas que ainda não estavam prontas, não prometeu que seria o melhor RPG do mundo sem ter certeza. Diz-se até que fez uma cirurgia de retirada de lágrimas para evitar que chorasse de emoção ao falar do jogo (tá, essa foi mentira).
Mas algo me diz que, se Pedrinho Molinete não tivesse tomado todo esse cuidado, poderia até ser perdoado. Saiba porquê após o continue.

» Visite Albion! Eu já joguei Shadow of The Colossus, Assassin’s Creed, Zelda: Twilight Princess e vários outros jogos do estilo, mas nenhum deles apresenta um mundo tão fantástico e bem construído quanto Albion. A arquitetura das cidades e o relevo dos campos é tão autêntico que chega a dar a impressão de que foram moldados a partir de lugares reais. E a falta de um mapa geral do mundo faz com que você tenha a impressão de tudo é muito maior e que você nunca vai conhecer todas as áreas.
» Batalha & Experiência. O sistema de luta é tão simples que corria perigo de ser chatíssimo, mas a Lionhead acabou acertando quase um Critical Hit. Os golpes físicos, mágicos e de longo alcance são feitos usando os botões X, B e Y, respectivamente. O ritmo do pressionar dos botões faz toda a diferença na beleza e fluidez das lutas, mas não a ponto de ser difícil (longe disso, até). Ao matar um inimigo usando um dos três tipos de ataque, você ganha experiência específica para aquele tipo, podendo melhorar o personagem nesta área, mas também ganha experiência genérica. O que é útil para evoluir todas até certo ponto, mesmo que você só use uma. Ângulos de câmera dramáticos durante os melhores golpes também ajudam a tornar as batalhas mais bacanas.
» Fazendo a Social. Usando a Roda de Expressões, você tem liberdade de mandar um transeunte pr’aquele lugar, assim como pode ser cortês e engraçado. Cada pessoinha insignificante no mundo tem uma opinião sobre você, seja ela medo, respeito, admiração, ódio ou desejo sexual, entre outras, e essas opiniões individuais afetam a opinião geral de cada região do mundo sobre você. Seja odiado e veja as pessoas te chutarem na rua e cobrarem o dobro do preço por qualquer item. Então simplesmente mate essas pessoas e pegue os itens de graça. Ou, claro, seja uma pessoa legal e ganhe descontos porque a moça da barraquinha de tortas é apaixonada por você. Case com ela (e com quantas outras quiser) e tenha filhos, que vão te amar ou deixar de te reconhecer caso você fique muito tempo sem aparecer. Apesar de funcionar dentro de certos limites, a simulação social do mundo é um dos grandes destaques para quem gosta dessas coisas.
» Dilemas morais. Desde Black & White que Molyneux e a Lionhead vêm brincando com esse conceito de bondade e maldade, mas em Fable 2 isso foi elevado a uma proporção que nunca antes foi vista em videogame (o que absolutamente não quer dizer que outros não poderão superar, e muito, esse aspecto no futuro). Em vários momentos da história você se depara com decisões difíceis a tomar, e é impossível não se perguntar o que poderia ter acontecido caso a decisão tivesse sido outra. Ao fim da história principal, você precisa tomar a decisão mais massiva de todas (em um momento que pra mim se tornou inesquecível). Não importa a sua escolha, as consequências serão enormes, e você terá que conviver com elas.
» De novo e de novo. Devido a todos os momentos de decisões importantes, e mesmo às mudanças de comportamento que o alinhamento do seu personagem provoca, uma segunda campanha tem o potencial de ser 90% diferente da anterior. Levando em conta que uma dessas campanhas pode levar mais de 30 horas se você quiser fazer todas as sidequests (não se preocupe, a história principal demora menos da metade disso), e que depois ainda teremos os recém-anunciados conteúdos extras por download, temos aí jogo pra caramba.
» Faltou uma mágica. Há várias magias diferentes, e a maioria delas é ótima, mas a interface para selecioná-las durante a batalha deve ser o maior FAIL do design do jogo. Como resultado, você acaba usando apenas uma magia durante todo o jogo, só pra não ter que trocar.
» Cachorro. O seu companheiro peludo é esperto, valente, amigo, te acompanha e serve como radar de tesouros, mas podia ser tão mais do que isso que eu não consigo evitar de pensar nele como um fracasso do jogo. Nem mesmo o obrigatório “momento emocionante do cachorro”, perto do fim do jogo, chegou ao menos perto de me emocionar. Uma puta oportunidade desperdiçada.

Com Fable II, a Lionhead mostrou que é capaz de aprender com os seus próprios erros e entregou o jogo que havia prometido que o primeiro Fable seria. Um ótimo RPG de ação, com mecânicas sólidas, dificuldade na medida certa e muitas horas de jogo. Mas que, por cima de tudo isso, tem camadas e mais camadas de momentos marcantes, dilemas morais, tudo em uma experiência que é diferente a cada vez, a cada pessoa.
Difícil se arrepender depois de comprar este aqui, viu.
Fable II foi desenvolvido pelo Lionhead Studios e publicado pela Microsoft Game Studios. Foi lançado no dia 21 de Outubro de 2008 para o Xbox 360 e está à venda no Brasil por R$159,00. Foi jogado até o término do enredo principal, assim como várias missões paralelas. Modo co-op não foi testado.
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