
[Em mais uma edição da sua série extraordinária de posts sobre jogos que resistiram à maldição do tempo, Daniel Trezub nos fala um pouco mais sobre este que é, provavelmente, o maior clássico da história dos games.]
Diferente do jogo anterior (Transport Tycoon Deluxe), o dessa semana pode ser encontrado em qualquer lugar. Para você ter uma idéia, até a minha TV da sala tem uma versão dele instalada de fábrica. Mesmo se você achar que não tem versão alguma por perto que possa jogar, é só dar uma procurada no seu computador que é bem provável que encontre. No uTorrent, por exemplo, se você teclar T enquanto olha para a tela de About, ele aparece para comer preciosos minutos do seu dia enquanto você espera seus downloads terminarem.
Eu arriscaria dizer que Tetris (1988) é um dos maiores sucessos do mundo dos games até hoje. Meu pai tinha um daqueles aparelhinhos do Paraguai com mais de não sei quantas variações do jogo. Praticamente todos os videogames do universo têm um port de Tetris para seus sistemas. Celulares, televisões, agendas eletrônicas, geladeiras e qualquer outra coisa que tenha uma tela, teve, tem ou terá uma versão de Tetris. Isso é uma lei imutável do universo dos jogos eletrônicos.
Um dos fatos interessantes sobre Tetris é sua história de intrigas, roubos e tribunais. Ele foi criado em 1985, pelo russo Aleksei Leonidovich Pazhitnov (Alexei para os íntimos), para o computador Electronica 60 enquanto trabalhava no Centro de Computação da Academia de Ciências Soviética. Com ajuda de um colega, Vadim Gerasimov (hoje trabalhando para o Google), o jogo foi portado para o PC na esperança de poderem vendê-lo em um pacote lúdico desenvolvido por eles e Dmitry Pavlovsky. Porém, como trabalhavam para o governo da União Soviética, os planos de vendê-lo foram por água abaixo, e o time distribuiu os jogos para seus amigos. Em poucos dias estavam todos irremediavelmente viciados em um deles em particular: Tetris.
O game ganhou as ruas de Moscou e, um ano depois (1986), programadores na Hungria faziam conversões para o Apple II e para o Comodore 64. Foi por meio de uma dessas conversões que o espertalhão Robert Stein (dono da softhouse inglesa Andromeda) conheceu o hit. Como bom capitalista, Stein viu na criação de Alexei uma mina de ouro. Com pressa em ganhar dinheiro, Stein vendeu os direitos do jogo para a Mirrorsoft e sua afiliada americana, Spectrum Holobyte, antes mesmo de falar com Alexei. Pouco tempo depois, a versão para PC de Tetris era lançada pela Mirrorsoft/Spectrum. Foi um sucesso absoluto, e a imprensa escrevia críticas altamente favoráveis ao “primeiro jogo saído de trás da cortina de ferro”.
Stein, porém, não foi o único a vender algo que não lhe pertencia. A Mirrorsoft fez o mesmo com os direitos para os arcades, vendendo-os para a Atari. A Atari, por sua vez, sub-licenciou os direitos dos arcades no Japão para a Sega, e os dos consoles (que ela não tinha comprado de ninguém) para a Tengen, que os sub-licenciou para a Bullet-Proof fabricar a versão do Nintendo Famicon.
Entendeu? Então leia de novo.
Enquanto isso, o jogo para PC vendia como sushi no Japão. Nesta época o GameBoy estava no forno, pronto para ser lançado, e a Nintendo entrou no rolo, propondo à Bullet-Proof que negociasse os direitos de Tetris para os handhelds. Henk Rogers, representante da Bullet-Proof, voou até Moscou para negociar com o governo russo. Lá ele exibiu, todo orgulhoso, a versão do jogo para o Famicom, apenas para ser informado que os direitos para os consoles nunca haviam sido oficialmente vendidos. Chocado e não querendo perder esses mesmos direitos, ele assinou um cheque representando as vendas do cartucho até então.
No mês seguinte, Rogers voltou à Rússia com um advogado da Nintendo e garantiu os direitos do jogo para todos os consoles. A Atari, que planejava lançar uma versão nos EUA para o Famicom através da Tengen, recebeu uma cartinha não muito educada da Nintendo dizendo para parar e desistir. A Tengen processou a Big N e a Big N processou a Tengen. O tempo passou, o Tetris para Famicom da Tengen foi lançado e vendeu horrores nos EUA. No final da história a Nintendo ganhou a briga e a Tengen foi obrigada a recolher todos os cartuchos que ainda restassem nas lojas. Com isso a Nintendo pôde lançar, então, seu Tetris para o NES nos EUA. Logo em seguida foi lançado o GameBoy, em 1989.
Tudo isso mostra duas coisas: como o mundo corporativo é um pandemônio e como o joguinho do Pajitnovski é bom.
O fato de Tetris ser vendido junto com o portátil da Nintendo fez do jogo uma verdadeira febre: foram vendidos mais de 32 milhões de GameBoys. Em 1995, dez anos depois da criação do jogo, Alexei finalmente deteve todos os direitos sobre Tetris, graças a uma cláusula no contrato da Nintendo. Na época, achava-se que dez anos seriam mais do que suficientes para que o jogo não valesse mais um centavo. Estavam todos enganados. Alexei mudou-se para os EUA e, junto com Henk Rogers (aquele da Bullet-Proof), fundou a The Tetris Company (TTC) para gerenciar os direitos, licenças e copyrights de sua criação.
Obviamente não foi tão fácil assim, e mais algumas pendengas judiciais tiveram que ser travadas. Hoje, os direitos de Tetris pertencem à Tetris Holding Company, que os licencia para a Nintendo, para a Eletronic Arts Mobile e outras empresas.
E enquanto isso, a gente continua jogando.
Algumas curiosidades sobre os blocos de encaixar que não são LEGO:
12 comentários em "[Os Incansáveis #02] Tetris"
11:11 am
Nem brinca porque tem Bejeweled da Paris Hilton pra celular. Sério.
11:35 am
E eu já joguei o da Paris /o\ Omg /o\ Pesquisas, pesquisas…
Anyway, achei esse texto sobre Tetris inferior ao do Transport Tycoon. Jeitão Wiki, sem o detalhamento do anterior. Existe um documentário do Discovery Channel sobre a história dos videogames que tem todo esse caso judicial da Nintendo e do Tetris, com depoimento dos principais envolvidos.
Eu acho que é no meio desse vídeo aqui:
http://video.google.com/videoplay?docid=3637639460474263178
E tem esse livro aqui também:
http://www.amazon.com/Ultimate-History-Video-Games-Pokemon/dp/0761536434
12:00 pm
tetris vicia e causa tendinite crônica. cuidado.
2:17 pm
Pois eu gostei do texto e parabenizo o autor.
Tetris para Brawl!
2:24 pm
Olá meu nome é Claudio Prandoni e eu sofro de “Efeito Tetris”. Ou ao menos eu acho. Ou pelo menos é o que meu amigo imaginário “Bloco L invertido” me diz. Enfim…
Belíssima lembrança JP, já estava cavocando a net para achar este fabuloso documentário. É uma verdadeira salada mista essa história, mas o vídeo (e o Daniel) explicam muito bem.
Confesso que senti um pouco de falta também das impressões do autor do texto. A história é animal e o texto está ótimo, muito bem escrito mesmo, mas poderia discorrer um pouco também sobre a emoção do jogo, as musiquinhas clássicas da versão GB…
2:42 pm
a musiquinha classica …. musica folclorica russa que por acaso Argus, é uma as melhores do brawl xD
Aaaaaaaaaaaamo aquele solinho de violino =3
E se a idéia da coluna é falar sobre jogos que não morrem … faltou citar as versões mais recentes do tetris . nem q seja o homebrew pra wii usando twilight hack xD
4:12 pm
Ou o ScummVM.
7:38 pm
Ah, eu acho ANIMAL essa história do Tetris, por isso o enfoque. Daria um belo dum filme, até. E pensei “meu, QUEM não conhece Tetris?”. Se fosse falar de tudo, daria uma série só sobre Tetris.
Mas, ok, queridos leitores. Captei vossa mensagem.
O próximo texto já está no forno, aguardem, com mais um clássico imorrível
7:46 pm
Platy, discordo. Gosto muito das músicas, mas as versões das canções de Kirby simplesmente me emocionam, assim como Bramble Blast, King K. Rool Ship, etc.
1:27 am
Maldito Tetris, devo ter gasto um Nintendo 64 em pilhas A4 para o meu Game Boy, o maldito do jogo é viciante!
E o Alexei… vida boa não quer pressa, hoje em dia o cara vive de renda pela grana que recebe dos jogos “tetris-based”
1:59 pm
Suzana, por falar em Bejeweled da Paris Hilton.
Tenho quase vergonha de dizer que esse é, DE LONGE, o jogo que mais joguei no celular… como os joguinhos de celular ainda são tããão fraquinhos, só um puzzle mesmo pra divertir. Até os clones de Tetris no celular eu achei fracos.
Já o Paris Hilton’s Diamond Quest, apesar de ser todo ROSA, de ter fotos do cão com nome de fadinha e mais uns comentários completamente desnecessários da patricinha, pelo menos é muito bem executado. Marmanjo que sou, me condicionei a abstrair todo o resto hehehe
Atualmente, abro e vou direto pro Diamonds are Forever (sem fim, sem limite de tempo). É a melhor maneira de apenas juntar pedrinhas sem ser distraído pela Paris.
12:43 pm
[...] versão de Puzzle Bobble, o jogo “homenageado” por Blockles é o grande, incrível e incansável Tetris. Mesmo esquemão: faça várias linhas e pegue itens para usar contra os oponentes. Joguei umas [...]
Comente, participe!
Quer ter um avatar mais bonito do que esse azul padrão? Cadastre a sua imagem no Gravatar usando o email que você usa para comentar aqui. E nunca mais seja igual aos outros!