Todos estamos acostumados a discutir as últimas notícias, apostar sobre os rumores mais quentes e defender os nossos títulos preferidos nas polemicas do dia-a-dia. Somos gamers, é isto o que fazemos. Geralmente.

Mas eu gostaria de convidar vocês para algo novo desta vez. Ficção.

Esta é um conto criado a partir daquele que é, na minha humilde opinião, um dos melhores universos fictícios entre os disponíveis para os consoles atuais: o de Killzone 2 .

Espero que vocês se divirtam e me acompanhem até o final dessa história. O espaço de comentários, como sempre, é de vocês para críticas e sugestões. Valeu.

ZONA DE GUERRA
Capítulo 1 – Vala

“Somente aqueles que nunca deram um tiro, nem ouviram os gritos e os gemidos dos feridos, é que clamam por sangue, vingança e mais desolação. A guerra é o inferno.”

Gen. William T. Sherman

Os olhos rubros o perseguiam. Não era um belo dia para morrer.

Balas zumbindo como abelhas raivosas passavam por todos os lados e ele corria incansavelmente. À sua frente apenas o cinza de edificações parcialmente destruídas, mantendo-se em pé somente pela preguiça de tombarem em destroços e poeira.

Podia ouvir as vozes abafadas pelas máscaras a uma distância de quase setenta passos; estavam perigosamente perto.

Quebrou seu percurso irregular em meio à avenida, aproveitando um beco precariamente iluminado para tentar despistar os malditos Helghasts que seguiam logo atrás. Arrastando as pernas, permaneceu agachado atrás dos restos de um dos veículos militares que, como o dele, despencou dos céus de Pyrrhus ao ser atingido por um lampejo azul violento. Uma arma incrivelmente destrutiva de Visari, mas que nunca havia ouvido falar em seu treinamento nos quartéis submissos à UCN (United Colonial Nations) de Vekta.

A rotina de sobrevivência, elucidada nos meses anteriores, previa situações críticas e pretendia os manter sãos em meio ao caos da batalha, mas nada chegava aos pés daquilo. Seu estômago lutava bravamente para manter a ração nutritiva dentro dele.

Podia ouvir os sons do embate ao longe; homens bradando palavras incompreensíveis e incapazes de serem distinguidas entre um regozijo latente ou exclamações de dor.

Num lampejo de coragem, o jovem atirador sniper, recém membro do Kappa Team, pôs-se em pé, apoiou o rifle na lateral metálica de sua trincheira improvisada, prendeu a respiração e esperou.

Os companheiros de esquadrão, agora não mais do que corpos espalhados pelo solo desgraçado daquela colônia hostil, faziam questão de exaltar pelos corredores da New Sun que Kyle era um dos escolhidos de seu Deus para protege-los. Sua destreza já era reconhecida até pelo Capitão Templar, um dos maiores ícones da Aliança.

Quando foi recrutado, vindo de Hillmont, para a invasão ao covil de Visari, o ainda cabo Kyle Schuabb, já havia desenvolvido uma habilidade incomum com o rifle de precisão. Acertava com tranquilidade um alvo móvel a quase dois quilômetros e meio, mesmo em uma época em que varar os mil e setecentos metros era um feito inacreditável devido a discrepância entre a gravidade e atmosfera dos inúmeros planetas.

Porém, desta vez era diferente. Não estava em um estande de tiro, crivando objetos inanimados de projéteis, com direito a tentar novamente caso falhasse. Sua vida corria perigo.

De que valia o talento em alvejar o mais longínquo escopo se os inimigos estavam a menos de 300 metros de sua cobertura?

Sentia o cansaço causado pela maior gravidade de Helghan. Seus pulmões pareciam prestes a explodir devido a pressão e os olhos falhavam frenéticos a medida em que a adrenalina alcançava os céus em seu corpo.

Estranhamente silenciosa, a viela em que havia se refugiado parecia não fazer parte do apocalipse que o cercava em terra. As explosões e rajadas metálicas de morte haviam sido ocluídas de fora naquela cena. Estava fadado a matar ou morrer sem rosto, sem espectadores.

Podia ouvir os passos se aproximando lentamente. Seus adversários caminhavam cautelosos, estudando o cenário em ruínas.

Um a um, três pares de círculos brilhantes ultrapassaram a entrada do beco em linha reta. Por um momento considerou tê-los despistado durante a evasão. Mas só por um suspiro.

— Por aqui. O rato foi por aqui – disse o último dos soldados, caminhando decididamente em sua direção.

“Olhos felinos do inferno”, murmurou o 2º Sargento Schuabb sem mover nenhum músculo além dos necessários para amaldiçoar os Helghasts, enquanto aguardava pacientemente que entrassem em seu alcance de morte.

A escuridão lhe servia como manta, contudo a visão dos filhos de Helghan havia sofrido mutações durante o século em que colonizaram aquela terra inóspita e em poucos metros seria facilmente detectado. Finalmente detectado.

Mas Kyle esperou. Sabia que ao abater um dos artilheiros, seu refúgio se revelaria, resultando em duas metralhadoras STA-52 cuspindo 800 projéteis por minutos contra seu rifle VC32 de recarga manual a menos de um quinto de milha. Estava em clara desvantagem.

Duzentos e quarenta passos… duzentos e trinta passos… Schuabb acariciava com delicadeza o gatilho com dedos suados. Infame, tinha apenas uma chance.

Um estrondo ensurdecedor começou a tomar conta das ruas, crescendo numa mesma constante em que o chão parecia querer se partir. Mais um relâmpago mortífero saiu rumo às tropas da Aliança que não haviam cessado sua investida.

De maneira grosseira a luz anil invadiu o beco e fez o rifle do jovem reluzir junto ao cabelo claro.

Seu olhar se chocou diretamente com o do primeiro homem de guerra e por uma fração de segundo os dois se encararam em uma fusão de respeito e medo. O brilho azulado perdia força no céu quando Kyle atirou.

Alinhados, dois guerreiros tombaram. Um único disparo perfurou o primeiro Helghast no lado direito da garganta, dilacerando vértebras como se feitas de papelão úmido, resvalando por fim no segundo guerrilheiro um pouco acima do colo, abrindo um buraco de ossos e sangue escuro.

Mal recebeu o coice do rifle calibre 12,7 mm, o atirador se levantou e jogou todo o peso do corpo para arrombar a porta do edifício ao lado. O ultimo membro da artilharia urrava em ódio e seus disparos atingiam as paredes de concreto, espalhando capsulas como lágrimas.

Kyle subiu vários lances de escadas, pulando os degraus em punhados. Sua vontade era armar-se com a pistola simples e aguardar ao lado contrário à subida. Mas seu instinto o mandou continuar se movendo.

O povo de Helghan era extremamente orgulhoso. Soberanos de um universo próprio, hoje reduzido a frangalhos. Endurecidos pelo tempo e condições subumanas de sobrevivência, reputavam os seres humanos normais como uma raça inferior. Agora todo este asco havia sido triplicado. Um único verme havia abatido dois grandes guerreiros.

— Vou servir suas tripas ao Autarca depois pendurar seus restos num dos postes para mostrar como tratamos sua escória em Pyrrhus! – As palavras eram cuspidas com rancor sob a máscara.

Cada membro parecia pesar mais de cinquenta quilos, mas o sniper não conseguia tempo para raciocinar e concluir o quanto estava exausto. Mantinha uma distancia de três andares de seu perseguidor, mas após o quinto lance de escadas se deparou com dois grandes problemas. Não haviam mais degraus para subir e seu corpo não aguentaria mesmo se houvessem.

Testou algumas portas e não se surpreendeu ao encontrar todas trancadas e reforçadas demais para um novo arrombamento. Seu confronto seria direto.

Recostou o joelho direito no assoalho, apoiando o rifle com a ajuda da perna esquerda enquanto regulava as lentes. O corredor era deveras estreito e não havia foco suficiente. Com um suspiro decepcionado pousou o companheiro ao lado; “Esta batalha não é sua”, sussurrou Kyle virando-se para checar o tambor do revólver M4. Seis cartuchos. Era isso, sem reposições. A sorte estava lançada.

Alguns instantes depois o Helghast se elevou ronceiro pelo último lance de escadas, sem demonstrar temor algum.

— Muito perto para usar seu brinquedo, verme? – Os olhos pareciam arder incrivelmente mais do que antes, deixando um rastro alaranjado conforme se moviam.

— Perto o bastante para ouvir sua lamúria quando terminar – desdenhou com altivez o soldado da Aliança, escarrando no chão como se pontuasse a afirmação com nojo.

A pistola firme ao final do braço solto incomodava profundamente o algoz de Visari. Seu orgulho bramia em rancor por seus aliados, ao mesmo instante em que a audácia daquele humano o divertia.

Uma expressão de sincera surpresa surgiu na face suja em pólvora e lama do jovem artilheiro. A mão negra que antes premia raivosamente o gatilho duplo da metralhadora, agora empunhava uma STA-18, arma de punho único e calibre ligeiramente inferior ao seu. Estavam agora em pé de igualdade.

— Vamos dançar, rato.

Passaram-se anos, minutos, dias ou segundos antes que disparos fossem dados.

Vidros velhos, berços de inúmeros trincos, brilhavam opacos quando vistos de fora. A forte tempestade de areia entrava no prédio como fios de suor expelido pelos poros.

Mais uma vala seria aberta. Definitivamente, não era um belo dia para morrer.

[[Agradecimentos ao brother Lucas Vaz, que fez as imagens na camaradagem para ilustrar este texto.]]

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  1. Ops, nenhum post relacionado. Este post deve ser bem único!