Embora este texto possivelmente só esteja sendo publicado muitos dias depois, agora são exatamente 1:36 da madrugada do dia nove de fevereiro de 2010. Há pouco mais de vinte minutos eu terminei Mass Effect.

Mas o jogo é de 2007, você deve estar silenciosamente exclamando. Por que o Fabio só jogou agora?

Metade da culpa foi do Steam, que vendeu o jogo por absurdos $5 durante a última promoção de fim de ano. Confesso que comprei sem nem pensar duas vezes, mesmo tendo quase certeza que jamais iria jogar. “É um RPG”, pensava eu. “Não tenho mais tempo e paciência para RPGs”.

A outra metade da culpa – a maior metade, diga-se de passagem – foi do hype em cima de Mass Effect 2. Quando um jogo sai e subitamente você ouve falar dele todos os dias no Twitter, você começa a se perguntar se ele é tão bom assim. Quando um jogo avaliado de 0 a 100 por mais de 50 publicações especializadas fica com média 96 no Metacritic, você começa a ter sérias vontades de ir atrás de descobrir por si mesmo se ele é tão bom assim. Concluí que Mass Effect 2 era um jogo que eu não podia deixar de jogar se quisesse me considerar um gamer sério, um fã sério de narrativas digitais.

Só que eu não ia começar do 2 em um jogo tão centrado na história, né? Eu até cogitei a possibilidade, mas um grupo de amigos sensatos me colocou juízo na cabeça. Então fui lá e joguei o Mass Effect, o primeiro, o início, a origem.

E, cara, se o segundo conseguir ser ainda melhor do que o primeiro (como todos os sinais indicam que seja), eu não sei se vou ter na minha cabeça espaço para tanta adoração. Mass Effect já é, a partir de hoje, a minha série favorita – e a BioWare, que antes eu só conhecia do fraco Sonic Chronicles , já é uma das empresas que eu mais admiro nessa indústria.

Indo direto ao ponto, Mass Effect, pra mim, foi o ápice da narrativa em games. Não porque os diálogos sejam maravilhosos (apesar de serem), nem porque a história seja madura e bem contada (apesar de ser), mas sim porque a narrativa desse épico espacial transcende os limites do próprio enredo.

Existe um arco de história principal, e o que acontece nele é animal, mas além disso ainda existe todo um universo expandido, cheio de raças únicas, com suas culturas, características físicas e interesses em uma sociedade galáctica assustadoramente crível. Todas interessantíssimas, acrescento. Dezenas de planetas visíveis, e mais umas dúzias nos quais você pode pôr os pés, cada um com um horizonte, solo e atmosfera diferentes. A história principal está lá, mas o ato de explorar e aprender sobre este rico universo onde ela se desenrola, pra mim, foi a parte mais interessante.

Essa semana eu li, em uma resenha do Mass Effect 2, uma frase que se aplica lindamente à minha experiência jogando o primeiro: “Quando você não está jogando, você fica pensando em como gostaria de estar; e quando você está, não se imagina fazendo outra coisa.”

Eu sempre me considerei um cara incapaz de longas sessões de jogo. Duas horas, ou três no máximo, de qualquer jogo, já são o suficiente para me cansar. Foi assim com Metroid Prime, todos os Zeldas, Mario Galaxy, LittleBigPlanet, BioShock, Uncharted, ambos os Assassin’s Creed… todos jogos maravilhosos. De modo que o problema, concluí eu, era obviamente comigo, não com os jogos. Errado. O problema era que eu nunca tinha encontrado um jogo que me prendesse e me amarrasse de tal forma em seu universo, a ponto de – literalmente, agora – negligenciar o mundo real em alguns momentos. Em determinado ponto no jogo eu estava tão imerso que só fui ao banheiro porque a minha bexiga mandou ao meu cérebro um ultimato em três vias autenticadas, ameaçando-o com o início imediato de uma greve.

Mass Effect tem os seus defeitos. O mapa das galáxias é horrível de navegar. A tela de inventário, e o gerenciamento do mesmo, são ridiculamente ruins. Os mapas das fases são quase inutilizáveis. O sistema de combate é muito mais complexo do que o necessário, de modo que eu simplesmente ignorei boa parte dele e me concentrei apenas em atirar em todo mundo que atirasse em mim. Funcionou que foi uma beleza.

Mas os personagens são tão verossímeis e o enredo é tão complexo e pessoal que reclamar de coisas assim seria o cúmulo de ver o copo meio vazio.

Fica claro que, depois de trabalhar em Knights of the Old Republic, a BioWare ficou com os olhos brilhando, pronta para criar a sua própria saga espacial. No entanto, eu acho errado dizer que Mass Effect é o Star Wars dos games. Star Wars é brinquedo de criança perto deste épico estelar. Sério: depois de jogar Mass Effect, fica impossível não achar a historinha dos Jedi até meio boba e juvenil. Tanto em termos de história quanto de mitologia e universo, Mass Effect dá uma surra de mangueira ligada em Star Wars.

Asari, Salarian, Krogan, Quarian, Volus, Turian. Todos estes, e provavelmente mais alguns, são nomes de raças espaciais que convivem com os humanos em uma sociedade galáctica incrivelmente bem estruturada. E cada uma delas é incrivelmente única, desde a fisiologia até a cultura, e foi desenvolvida até o ponto em que fica ridículo pensar no tempo, esforço e dedicação que a BioWare deve ter empregado no roteiro desse jogo. Nada disso é obrigatório para avançar a história principal, mas há uma seção no menu, chamada Codex, que oferece literalmente horas de leitura para quem quiser se profundar e realmente conhecer cada raça, planeta, cidade, organização e empresa fictícia desse mundo que quase chega a ser assustadoramente real.

E mesmo sem acessar essas partes “chatas” de leitura, basta conversar com os outros personagens, principais ou coadjuvantes, e explorar as opções de respostas possíveis na Conversation Wheel para descobrir, através de diálogos com dublagens primorosas, tudo sobre tudo. Diferente de alguns outros jogos que gostam de pensar que têm uma boa história, dez minutos de diálogos em Mass Effect são dez minutos de diversão e entretenimento, assim como seriam em um bom filme (só que com você escolhendo as suas respostas).

Falando sobre a Conversation Wheel, apesar dela ser um dos maiores destaques do jogo, inaugurando uma maneira não tediosa de escolher a sua próxima resposta, eu tenho lá as minhas críticas a ela. A partir do momento em que você começa um personagem certinho, justo, que ajuda a todos e é educado, você está meio preso a este alinhamento chamado Paragon, porque vai querer desbloquear as “respostas definitivas de Paragon”. Se você fizer um personagem mal educado e cheio de malícia no coração (um Renegade), idem. Nenhum dos dois caminhos é ruim, o que é ruim é ter que escolher um e ficar nele. Sentir que o jogo de certa forma te pune por alternar entre essas duas personalidades da forma que uma pessoa normal alternaria. Afinal, por mais educado que eu seja, de vez em quando eu posso querer estourar e mandar um krogan abusado tomar no olho do cu, se é que eles têm isso.

Apesar das pequenas falhas, comuns a qualquer obra-prima de qualquer vertente artística, Mass Effect ressoa em mim como um marco de vida. Um jogo contra o qual eu vou passar a comparar qualquer outro jogo que se proponha a contar uma boa história. Ainda há muita coisa boa que eu poderia falar sobre o jogo, mas já acredito que esta resenha está redundante o suficiente. Elogiar Mass Effect é chover no molhado. Jogue.

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