Videogame: a coisa mais importante entre as menos importantes
[Texto enviado pelo leitor -- e meu amigão -- Thiago Duarte]
NPCs, do inglês Non-Player Characters, são personagens de jogos do gênero RPG que não são controlados por jogadores, mas que também não são inimigos. São criaturas neutras. Não cheiram, não fedem. Foram criados, basicamente, para preencher as cidades dos “joguinhos” para que os jogadores se sintam menos sozinhos.
Estaremos considerando aqui apenas os NPCs de RPGs eletrônicos, ou seja, jogos de videogame. Há pouco mais o que dizer sobre estes pobres amontoados de bits:
Bastante informativo, não? É exatamente neste ponto que você deve estar se perguntando onde diabos eu quero chegar com isso. Uma pessoa mais esperta poderia deduzir, pelo título do texto, a idéia central da discussão. A seguir, ela provavelmente concluiria que o autor deste texto tem sérios problemas mentais. Mas como você provavelmente não é tão esperto assim, vou dizer do que se trata. Mas certifique-se antes de estar sentado para não se machucar com o possível desmaio. Um, dois, três:
Você é um NPC.
Sim, um mísero NPC. Uma das pobres criaturas neutras. Imagine um daqueles terríveis cafés-com-leite mornos, quase frios. Você não cheira, você não fede. Eu poderia continuar a degradação moral por mais três parágrafos, mas acho que não há necessidade de fazer alguém se sentir tão mal assim. Principalmente por se tratar de um reles NPC.É bem possível que em toda a sua insignificância você ainda não tenha entendido as implicações de ser um NPC. Mas não se preocupe; eu vou explicar bem devagarinho para você entender.
O primeiro fato a considerar é que você só existe para preencher espaço. O objetivo da sua existência é fazer com que os jogadores não se sintam solitários.
“Mas quem são os jogadores? Por que eu não sou um?”, pergunta o esperto leitor. A resposta é bem simples: se você fosse um jogador teria coisas bem melhores pra fazer do que ler isto. Che Guevara, Napoleão Bonaparte, Tiradentes, Lula, Al Gore, Madre Teresa, Bono Vox e Chapolim Colorado – todos prováveis jogadores – jamais perderiam o seu precioso tempo lendo um blog. Pelo menos não este.
O segundo fato a considerar é que você não pode fazer nada para mudar o fato de que você é um reles NPC. Há uma série de barreiras universais que o impedem de ousar a ponto de alterar algo. Você foi criado para aceitar a sua vida do jeito que ela é, por mais entediante que seja. E a pior parte é que, na maior parte do tempo, você de fato acredita que não há nada de errado.
Terceiro fato: você não tem a capacidade de distinguir jogadores de outros NPCs, mas absolutamente qualquer jogador sabe que você é um NPC. Isto leva à óbvia conclusão de que você é muito, muito mais idiota que o mais imbecil dos jogadores.
Se por acaso você estiver com dificuldades de aceitar esta linha de raciocínio, você pode se sentir melhor sabendo que há um outro motivo (menos significativo) para a existência dos NPCs. Considere o seu trabalho ou o lugar em que você estuda como um exemplo disso. Quem, em sã consciência, escolheria acordar cedo todos os dias para fazer o que você faz durante horas a fio? Fato é que a sociedade toda depende da disponibilidade de alguém fazer o serviço que ninguém mais quer fazer.
Um dos trechos da série O Guia do Mochileiro das Galáxias que eu mais gosto é aquele no qual Douglas Adams explica o princípio de funcionamento de um determinado conjunto de robôs. Basicamente, basta condicioná-los a acreditar que são felizes ao realizar uma determinada função. Desta forma, “pilhas e pilhas de complexos códigos de computador responsáveis pelo comportamento dos robôs em todas as contingências possíveis podiam ser substituídas de forma bem simples.”
O mesmo princípio se aplica aqui, no caso dos NPCs. Basta fazê-los acreditar que a sua felicidade está no sexo, nas drogas ou no rock n’ roll – ou ainda nos videogames – e todo o resto se resolve sozinho. Eles chegam até a tomar a inexplicável decisão de trabalhar todos os dias, apenas para poder ter acesso aos seus incitadores de felicidade.
Entendidas as implicações, é interessante entender também o ambiente no qual você está inserido. Para um determinado conjunto de seres, o que você costuma chamar de “universo” não passa de uma uma mera forma de diversão. Ou seja, o seu doce lar nada mais é do que um simples playground. Quem assistiu MIB, sabe. Portanto, você deveria ter dado ouvidos a todas as pessoas que, durante o curso da sua vida, te aconselharam a não levar a sua vida tão a sério.
Note que, sob está ótica, torna-se mais fácil entender alguns fatos históricos. Como não há maiores implicações, por se tratar apenas de diversão, os jogadores podem devastar tudo quanto tiverem vontade sem se preocupar com as conseqüências dos seus atos. Poucos sabem, por exemplo, que o fato que deu início à Primeira Guerra Mundial não foi bem o assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand (não confundir com a banda), mas sim uma rixa entre dois jogadores, envolvendo uma simples disputa por um item que nem era tão valioso assim.
Caso você ainda não tenha acreditado em mim depois desta minuciosa explicação, ainda há uma última prova incontestável da credibilidade destas informações. Trata-se de uma prova prática, um experimento que você próprio pode realizar. Note, entretanto, que eu não me responsabilizo pelas conseqüências da execução deste experimento. Enfim, basta comprar uma katana em uma loja especializada e sair pelo mundo afora fazendo justiça com as próprias mãos.
Pronto? Não? Ah, você não consegue, não é mesmo? Então não há mais nada a dizer, caro NPC. Talvez um dia eu dê um pulo na sua lojinha para comprar uma armadura nova.

Um dos raros NPCs conscientes de sua condição.
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