
O que é qualidade? Uma pergunta simples com respostas complexas, difíceis e variadas. Assumindo que qualidade é algo abstrato e que depende da percepção de cada um, vou reformular a pergunta: o que é qualidade para você? Como não estamos nas páginas de “Zen e a Arte da Manutenção das Motocicletas” e sim no Continue, posso ser mais específico: o que é um jogo de qualidade para você?
Pode ser aquele que tem gráficos de cair o queixo ou um enredo capaz de arrancar lágrimas de jogadores com dedos e corações calejados. Talvez a qualidade esteja nos controles precisos ou na inovação do tipo “como é que não pensaram nisso antes”. Alguns jogos são tão bons que reinventam gêneros, criando um novo padrão de excelência pelo qual os futuros lançamentos serão julgados. Outros não se limitam ao que já existe e criam seus próprios gêneros, levando a indústria mais um passo adiante. Todas essas são características que associamos aos jogos de alta qualidade.
Mas um jogo precisa de todas elas para fazer parte do panteão dos maiores, melhores, inesquecíveis, dos games jogáveis até esfolar os dedos? E o que a análise de Soul Calibur IV tem a ver com esta discussão? A resposta está em outro castelo, depois do Continue.
O quarto capítulo da saga Soul Calibur — ou quinto, se contarmos o precursor Soul Blade — tem tudo o que os fãs esperavam: muitos lutadores, belíssimas glândulas mamárias arenas, o locutor com voz de trailer de cinema, as músicas que combinam faixas orquestradas e eletrônicas e a mesma jogabilidade viciante. Traz mudanças mínimas ao formato consagrado do jogo. Então é mais do mesmo, repaginado para a nova geração? Sim e não. Soul Calibur IV mantém o padrão de qualidade elevado que é característica essencial da série, traz de volta elementos de capítulos anteriores e acrescenta alguns novos ingredientes à fórmula.

O jogo tem muitos personagens selecionáveis e destravá-los é relativamente rápido, salvo uma ou outra exceção que exigirá um pouco de tempo, mas nada comparado aos personagens secretos de outros jogos de luta ou mesmo do capítulo anterior, exclusivo do PlayStation 2. Mas liberar todos os lutadores é só o começo da sua jornada nesse quarto capítulo da saga das espadas gêmeas.
Estão presentes praticamente todos os rostos conhecidos, do samurai enfezado Mitsururgi ao bizarro Voldo, da bela Sophitia à sensual Ivy e os antagônicos Siegfried e Nightmare. Todos com novas roupas e armaduras que são um espetáculo a parte, tudo muito bem feito. Há também uma nova integrante, Hilde, que luta com uma lança e uma espada e cuja história se cruza com a do penitente Siegfried e um vilão com um passado misterioso, ligado à ambas as lâminas, Soul Calibur e Soul Edge, chamado Algol. Vale ressaltar, todos os personagens têm seus próprios arcos no enredo de Soul Calibur IV, com histórias conectadas entre si, lutas contra adversários diferentes e seus próprios finais no modo Story.
Soul Calibur II tinha personagens exclusivos para cada versão e também uma criação especial de um desenhista famoso, e o mesmo acontece no novo jogo: cinco renomados desenhistas de mangá foram convidados pelo Project Soul e criaram as suas personagens. São de longe as mais exóticas da série mas todas elas se encaixam bem no rol de lutadores e vão agradar aos jogadores que procuram algo diferente.

Como todos já sabem, as versões de PS3 e Xbox 360 se diferenciam por um único personagem: Darth Vader no console da Sony e o saltitante Mestre Yoda na caixa X. Além deles, outro figurante oriundo de Guerra nas Estrelas está em ambos os jogos, o apelão “The Aprendice”, protagonista do próximo jogo da saga, The Force Unleashed. O Aprendiz é um lutador ágil, com movimentos amplos e estilosos e que usa e abusa dos poderes da Força, ao contrário do comedido mestre Yoda, que prefere se valer de sua habilidade com o sabre de luz.
Não joguei a versão do PlayStation 3, mas aposto que o Vader deve ser melhor do que o Yoda. Não é que o baixinho verde seja desbalanceado. Ele só é alienígena demais para Soul Calibur. Controlando o jedi você vai se mover saltando e atacando sem parar, ou se arrastará lentamente pela arena. Contra ele, vai descobrir que boa parte dos seus golpes passarão por cima da careca verde e que não é possível agarrar o tampinha. O pior é que nem em um combate Yoda vs Yoda você consegue agarra-lo! Não é que seja ruim, pelo contrário é um personagem divertido de jogar, mas poderiam ter caprichado mais nesses detalhes.
Jogar Soul Calibur IV é exatamente o mesmo que jogar os anteriores. Ataque vertical, horizontal, chute e defesa, esquiva em oito direções, basicamente o mesmo jogo de sempre. Quem já conhece, vai colocar o disco na bandeija e sair jogando. Mesmo que você nunca tenha jogado antes, vai pegar o jeito rapidinho, principalmente porque o jogo está mais amigável com iniciantes. O modo Story tem a opção de dificuldade Normal e Hard, mas poderiam chamar de Easy e Hard, tamanha a diferença entre as duas. No Arcade a dificuldade vai aumentando aos poucos e é ótimo para praticar e aprender os golpes. Há um modo Training, mas sem os tutoriais excelentes de Soul Calibur III. Tudo bem que os controles são intuitivos e mesmo um jogador inexperiente consegue soltar uns golpes bem vistosos em pouco tempo, mas um tutorial deixaria tudo mais completo.
Os veteranos e jogadores mais técnicos vão notar logo a nova barra “Soul Gauge” que fica abaixo da barra de energia e enche ou esvazia com golpes especiais e mesmo com algumas condições durante a batalha. Não é uma idéia nova, na verdade ela já existia em Soul Blade e retorna nessa edição. Também existem os Impacts, Just Impacts e o novo Critical Finish, uma espécie de Fatality que encerra a luta com um único golpe. Como tudo em Soul Calibur, o golpe é de fácil execução mas requer prática e não é sempre que você consegue. Arrebente duas peças de armadura do adversário, esvazie a Soul Gauge dele e aperte os quatro botões faciais (ou o LB, que já vem pré-configurado para isso) e pronto. Na prática é mais fácil de fazer em duelos contra jogadores que ficam muito na defensiva do que contra a máquina ou oponentes mais ofensivos.
Outra novidade é o “Active Time Battle”, que, apesar do nome pomposo, nada mais é do que o velho conhecido Tag Team. É divertido e acrescenta novas possibilidades ao combate, mas infelizmente só está disponível em alguns modos de jogo e não no Versus.
Falando em modos, Soul Calibur sempre teve diversos deles além dos tradicionais Arcade e Story. E este é outro ponto em que nada mudou, com a adição do modo Tower of Lost Souls. Na verdade, são duas modalidades distintas: ao escolher subir a torre, você enfrenta vários oponentes e pode trocar de personagem a cada dois ou três andares. Além das lutas, cada arena possui um objetivo especial que, se cumprido, destrava itens para a criação de personagens. Ao optar por descer a torre, você escolhe dois personagens e vai com eles até onde aguentar, num típico e difícil modo Survival. A cada cinco andares novos itens são liberados. De longe o modo mais difícil do jogo, principalmente porque, ao contrário da subida, não dá para continuar do último andar desbloqueado. Cada vez que tentar descer a torre, deve faze-lo desde o começo.
A possibilidade de criar seus próprios personagens foi uma das características mais marcantes do Soul Calibur anterior e retorna na nova edição, incrementada com novas possibilidades. E nem estou falando das criações engraçadas que você já deve ter visto por aí, como Kratos, Solid Snake, Super Mario, Auron, Dr. Destino, Seu Madruga e tantos outros personagens. O Character Creation é bastante integrado aos outros modos de jogo, especialmente à Tower of Lost Souls. Alterando as armas, roupas e peças de armadura dos lutadores, seus atributos também se modificam. Defesa, ataque e HP são influenciadas pelo que você usa no personagem e também é possível escolher habilidades especiais para os lutadores, que são liberadas conforme eles sobem de nível, como em um RPG. Seja brincando de reproduzir heróis de outros jogos, criando seus próprios guerreiros ou modificando os personagens do jogo, você vai passar um bom tempo no modo de criação de personagens de Soul Calibur IV.
Em se tratando de Versus, temos dois modos: Standard e Special. No primeiro, luta-se com os atributos normais e idênticos para todos. No Special você utiliza os atributos conseguidos com armaduras, itens e armas especiais adquiridas no Charater Creation. O ponto forte sem dúvida é a possibilidade de jogar online, contra oponentes do mundo todo. Um verdadeiro teste para as suas habilidades e que dá ao título um fator replay imenso. Mas mesmo em casa, as lutas rápidas e deslumbrantes de Soul Calibur IV são o palco ideal para humilhar os noobs se divertir com os amigos.
O fato é que Soul Calibur IV não é um jogo inovador. Não vai mudar o gênero nem definir os padrão pelo qual seus sucessores serão avaliados. Arrisco dizer que os jogos anteriores da série já fizeram isso e que o novo SC cumpre seu papel de trazer a franquia para a nova geração, com melhorias visuais e o acréscimo de alguns poucos elementos, que felizmente não são do tipo que só ocupa espaço no disco. Isso não faz dele um jogo ruim, pelo contrário. A Namco conseguiu preservar o padrão de qualidade e excelência que fazem da franquia uma das melhores no gênero. Soul Calibur IV, assim como o III, não é perfeito, mas é semi. É mais um passo para manter a semi-perfeição da série como um todo.

PROJECT SOUL
A equipe de desenvolvimento interna da Namco é dedicada somente à produção dos títulos da franquia Soul Blade & Soul Calibur. Salvo raras exceções, ficaram conhecidos por imprimir uma marca de qualidade exepcional nos jogos que desenvolvem. Além de Soul Blade e da série Soul Calibur, que dão nome à própria equipe, também estão por trás de outros jogos da Namco como o RPG Tales of Legendia.