(Ninja Gaiden 2) [bb]

Ninja Gaiden 2 é um jogo relativamente importante, historicamente. Afinal, ele é o último jogo produzido pelo excêntrico porralouca Tomonobu Itagaki antes da sua escandalosa saída da Tecmo, e consequente abandono da direção do Team Ninja. Ele, que capitaneou o time de produção da série até então, já foi visto por aí dizendo que nunca mais faria um Ninja Gaiden de novo.

Daqui a alguns anos, poderemos estar olhando para trás e relembrando dos “velhos tempos do Itagaki, em que Ninja Gaiden era bom”. Ou, claro, o contrário: “lembra quando Ninja Gaiden não era ruinzão daquele jeito? Foi só o Itagaki pular fora que o negócio andou!”

Mas no fim das contas quem se importa com isso, não é verdade? Você quer saber se o jogo é bom ou não, então corra lá pra depois do continue e mate essa curiosidade.

» Pelos olhos do Ninja

Tenho um amigo (o Carlos Corrales, do site Delfos) que sempre reclama da falta de jogos de “ação pura” hoje em dia. Jogos em que a sua única missão é se divertir. Sem muito texto, sem caixas para empurrar, enigmas para resolver e ou personagens para conversar; apenas coisas para explodir, inimigos para trucidar ou um botão acelerador para apertar bem forte. Caso esse amigo já não conhecesse e adorasse Ninja Gaiden II, eu o recomendaria fortemente. Ninja Gaiden II é ação pura.

Para os não iniciados, a série Ninja Gaiden (que é um dos grandes clássicos dos games, tendo se iniciado 1988 nos Arcades e no NES) é sobre Ryu Hayabusa, filho do lendário Joe Hayabusa e descendente da “Dragon Lineage”, uma tradicional e mística família de ninjas. Em todos os jogos ele precisa enfrentar algum demônio ou coisa parecida que planeja destruir o mundo por algum motivo aleatório — e sempre, sem exceções, segue à risca a Cartilha do Vilão, popularizada por Darth Vader (que inclui coisas como “Mesmo que você seja um vilão poderosíssimo, com um exército de criaturas do mal à disposição, e esteja tentando destruir o mundo junto de vários outros vilões poderosíssimos, nunca faça um ataque surpresa em conjunto para detonar o herói. Sempre lute sozinho de modo que possa ser derrotado”).

Se há mais uma coisa que pode ser dita sobre Ryu Hayabusa é o seguinte: em uma hipotética briga de soco entre ele e Chuck Norris[bb], um certo ator americano sairia bem detonado. Ryu não é apenas badass, ele é capaz de correr sobre a superfície da água. A bordo de uma fortaleza voadora em queda, ele cata a mulher, sobe na moto e se joga. Saltando entre duas paredes paralelas, ele atravessa qualquer vão que você imaginar. Ele fica de pé sobre o ponto mais alto do maior arranha-céu de uma Tóquio futurista, e depois de uma breve contemplação da cidade à sua volta, se atira e plana em direção à vidraça do imponente prédio vizinho, quebrando-a e prosseguindo com a sua invasão.

Toda essa macheza, claro, se reflete na jogabilidade. Jogar Ninja Gaiden II resume-se a uma simples atividade: comece no ponto A e ande até o ponto B — onde você enfrentará um chefão –, fatiando e  desmembrando centenas de inimigos no processo. Para que o ato de fatiar e desmembrar não se torne repetitivo e cansativo, o Team Ninja enfiou variedade no melhor lugar possível, as armas. De espadas simples e duplas a lanças de prata, de arco-e-flecha a shurikens incendiários, de garras estilo Wolverine[bb] a foices ceifadoras semelhantes à da própria Morte, cada uma com uma variedade incrível de golpes e combos, você tem milhares de opções para causar mortes horríveis a todos os insignificantes que pisarem no seu caminho.

A minha arma favorita é a Kusari-gama, uma espécie de mini-foice ligada por uma corrente a uma maça com espinhos enormes. Ryu lança a foice, segura pela corrente, puxa de volta, dá com a maça na cabeça dos inimigos, gira tudo ao seu redor e decepa várias cabeças no processo. Pra quem gosta de sangue e selvageria, um prato cheio. Sem contar que é um ótimo “desestressante”.

O mais legal é que o combate não é um apertar de botões desenfreado. Há que se usar um pouco a cabeça, esperando os inimigos atacarem para que você os pegue de guarda aberta ou no contra-ataque. Esquivas funcionam muito bem, e também rola um certo elemento estratégico na escolha da arma certa para cada ocasião. Inimigos que atacam em bando pedem uma arma de longo alcance, como aquela que eu descrevi no fim do parágrafo anterior, enquanto inimigos mais fortes e em menor número podem ser derrotados mais facilmente com uma arma mais potente e de menor alcance.

Outra característica marcante não só deste jogo, mas da série como um todo, é a dificuldade muitas vezes extrema. Embora Ninja Gaiden II tenha sido um pouco facilitado em relação ao primeiro Ninja Gaiden[bb], muitas partes continuam dificílimas mesmo para os jogadores mais experientes. No início do jogo, os inimigos são todos ninjas e monstros com uma personalidade meio “muita vontade e pouca noção”. Eles partem para cima mesmo, sem dó, e muitas vezes machucam, mas é só aprender a defender e esquivar que você se sai bem. Mais adiante já começam a aparecer soldados armados, que atiram à distância com metralhadoras, depois shurikens explosivos e lança-mísseis. Eventualmente você vai se deparar com gente usando mísseis anti-tanque! Contra esses você vai passar trabalho, mesmo no nível de dificuldade mais fácil (o jogo tem dois níveis no início, com mais dois ainda mais difíceis podendo ser desbloqueados).

É aqui que começam os problemas. Eu não seria hipócrita de reclamar da dificuldade por si só, o problema é que muitas vezes ela é aumentada por fatores externos à programação dos inimigos. Às vezes é por pura malícia dos desenvolvedores (como na ocasião em que, depois de eu passar o maior trabalho para derrotar um chefe, o bicho, já morto, explodiu na minha cara e me levou junto), mas geralmente a causa é o maior defeito do jogo: a câmera. Depois de jogar pérolas como Super Mario Galaxy[bb] ou — para ficar mais ou menos no mesmo gênero de Ninja Gaiden — God of War[bb], pode-se começar a pensar que todo jogo tem um sistema de câmera perfeito. Não tem. Não este.

Ninja Gaiden II tem gráficos estonteantes, mas eles infelizmente são mostrados por uma das piores câmeras já programadas em um jogo desse estilo. Nas partes de exploração ela sempre se mantém muito baixa, impedindo você de ver muito à sua frente. Nas partes de luta ela focaliza muito mais em Ryu do que os inimigos (talvez para valorizar a beleza do espetáculo sangrento que se tornam as batalhas), e, como se não bastasse, ainda insiste em ficar muito próxima. Isso quando não muda subitamente de ângulo após um golpe mais performático. Você fica perdido, desorientado, sem saber a posição dos inimigos à sua frente, e a única solução é atacar sem parar, na esperança de acertar algum incauto. O que quase nunca funciona muito bem. É frustrante em diferentes níveis, do “ah, dá pra aturar” ao “PQP, não é justo eu morrer por causa da câmera!”.

Mesmo com os problemas, fica a recomendação: eu recomendo Ninja Gaiden 2[bb] para quem quer um bom jogo de ação, com muito sangue, explosões e testosterona. E ninjas. Todo mundo gosta de ninjas.

O jogo resenhado foi gentilmente cedido pelo site Omelete.

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» Os Responsáveis

Tomonobu Itagaki

Dono de uma personalidade única e conhecido por sempre falar o que pensa (seja bom ou ruim) de quem der na telha, Tomonobu Itagaki é um dos game designers japoneses mais conhecidos no ocidente. Membro da Tecmo desde 1992 (contratado como programador gráfico para o jogo de futebol americano Tecmo Bowl) e líder do Team Ninja desde 2001, Itagaki é responsável pelas séries Dead or Alive (inclusive a vergonhosa série paralela Xtreme Beach Volleyball) e Ninja Gaiden, duas das principais franquias da Tecmo.

Em 2004, foi acusado de assédio sexual por uma colega. Apesar de ter sido julgado inocente e de ter o apoio da Tecmo em sua defesa, perdeu seu cargo de Diretor Executivo da empresa. Mas continuou liderando o Team Ninja até 2008, quando afastou-se da empresa, reclamando bônus não pagos e movendo um processo contra ela.

Team Ninja

O Team Ninja foi fundado em 1995 e desde então trabalha apenas nas séries Dead or Alive e Ninja Gaiden. A exemplo de Sonic Team (série Sonic) e Team Silent (série Silent Hill), é um dos poucos estúdios que se concentra primariamente em apenas uma ou duas séries. Localiza-se em Tóquio, Japão.

Ninja Gaiden 2 foi o primeiro jogo feito pelo Team Ninja a não ser publicado pela Tecmo. Em vez disso, foi publicado pela Microsoft Game Studios.

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