Videogame: a coisa mais importante entre as menos importantes
Recentemente eu recebi, através da nossa página de contato, um email bastante educado e longo. Apaixonado, até. Era um aspirante a desenvolvedor de games, brasileiro, 100% independente, que fez um jogo na raça e estava com ele virtualmente debaixo do braço, tentando obter alguma divulgação.
Como a coluna Quarta Indie vai voltar, inclusive com colaborador novo (putz… ah, foda-se, agora já revelei), tratei logo de passar o link do jogo do cara para o nosso novo colaborador. Pelo email que o nosso gamedev incógnito enviou, eu tive a impressão de se tratar de um projeto muito sério e profissional. Na cabeça dele pode até ser, e de certa forma eu o admiro por tratar assim. Mas acabou que o que eu vi foi um joguinho de RPG Maker.
E nem dos bons, por sinal. Segundo o meu colaborador, que é especialista em jogos indies:
Começando pelo nome totalmente clichê (“Dark Souls”), é um jogo feito no RPG Maker XP, onde 90% dos gráficos são chupinhados do RTP — o banco de gráficos que vem incluso com o Maker. Mau sinal. Os gráficos que não vem do RTP são muito feios e percebe-se que pouco ou nenhum esforço foi colocado nesse quesito. A música é tão repetitiva que desliguei as caixas de som com cinco minutos, e o jogo é completamente em inglês, o que seria compreensível se o inglês fosse bom. Sentenças mal construídas e sinais mal colocados provam o contrário.
E aí vem o critical hit: O jogo é retail, ou seja, o produtor está vendendo ele. Sabe o preço? VINTE FREAKIN’ DÓLARES. Nem Braid custa tanto.
Há um tempo atrás tivemos um outro projeto relativamente semelhante a esse, o Shadow of Light. Ok, ele é mais avançado, até por ser um MMORPG. Mas, pô, temática medieval? De novo? Já não tem muitos, bem mais do que o suficiente, no mercado? Agora, não vou dizer que o jogo em si não é bom, porque nem posso — ele ainda não foi lançado. Mas dê uma olhada no site oficial, nas artworks e screenshots. Parece algo que você pagaria para jogar?
A palavra que eu quero dizer e até agora não disse nesse post é ambição.
Por que não apareceu nenhum game designer brasileiro com uma ideia FODA ainda? Por que ninguém pensou em um jogo em primeira pessoa com uma arma que abre portais nas paredes? Por que ninguém pensou em um puzzle de física onde você joga desenhando formas geométricas? Por que ninguém pensou em uma mistura viciante de pinball com puzzle e música clássica? Por que ninguém pensou em construir uma torre de melequinhas? Por que preferem começar desenvolvendo justo RPGs, um estilo de jogo que, acho, só perde para simulação/esportes em complexidade e necessidade de mão de obra?
Pra fazer um puzzle você só precisa de uma boa ideia e conhecimentos para colocá-la em prática — e esse segundo requisito qualquer um pode ter com um pouco de determinação e estudo. Porra, o Brasil é conhecido como um dos países mais criativos do mundo! Cadê?! Boas ideias de jogabilidade primeiro. Depois vem história, plataforma, ferramentas, gráficos e o escambau.
Há pouco tempo falamos aqui do Zeno Clash, um jogo absurdamente criativo, apoiado em uma mecânica diferente (luta em primeira pessoa). Ele foi feito por um time que começou com três pessoas, no Chile. Hoje em dia o time “deu certo” e já está maior, mas tenho certeza que a ideia do jogo partiu da cabeça de um gamedev solitário. E aí, cadê o nosso Zeno Clash? Cadê a nossa grande ideia?
Quando aparecer, ganha um post de graça aqui no Continue. E a melhor parte é que não vai nem precisar.
Posts relacionados:
- Aviso aos sábios gastadores: Assassin’s Creed por R$29,90
- [Discussão de Fim de Semana] O Brasil dos games: melhor é impossível?
- Reggie Fils-Aime: “O Brasil poderia ser o nosso maior mercado na América Latina”
- Nintendo DSi oficialmente no Brasil. O preço? Só R$1300
- Microsoft do Brasil reduz de novo o preço do Xbox 360 nacional; por mim pode continuar baixando