Atualização: como eu não entendo absolutamente nada de como funciona a lei e os trâmites dela (vivo bem mais feliz assim), o post do Daniel Trezub veio bem a calhar ao apontar os erros factuais deste e de vários outros posts sobre o assunto. Aconselho a leitura.

* * * * *

Agora é oficial, minha gente. Vivemos em um país de merda. Peguem os pandeiros, os tamborins, façam umas fantasias de burro e escrevam “Ignorância e Regresso” na bandeira do Brasil. Depois peguem tudo isso, montem um bloco de carnaval e vamos cair na folia! Porque este ano não há tema melhor para samba-enredo do que este:

Em cumprimento de decisão judicial proferida pelo Juízo da 17a Vara Federal da Seção Judiciária do Estado de Minas Gerais, válida em todo o território nacional, nos autos da Ação Civil Pública n° 2002.38.00.046529-6, o PROCON/GO está apreendendo no Estado de Goiás os jogos virtuais de vídeo-games e computadores: “Counter-Strike” e “Everquest”, que foram considerados impróprios para o consumo, na medida em que são nocivos à saúde dos consumidores, em ofensa ao disposto nos artigos 6, I, 8, 10 e 39, IV, todos do Código de Proteção e Defesa do Consumidor. (Site do PROCON de Goiás)

Não deve ser difícil trocar umas palavrinhas aqui e ali e fazer isso rimar. Vai ser 10 na avenida, com certeza. Pra quem está se perguntando qual o motivo de se proibir dois jogos já tão antigos quando se tem carne nova para atacar (Manhunt 2, alguém? Pelo menos ninguém ia sentir falta), eis motivo oficial, publicado no site:

O jogo “Counter Strike” (reféns, bomba, fuga, assassinato, armas, técnicas de guerra, táticas de guerrilha) reproduz a guerra entre bandidos e policiais e impressiona pelo realismo. O jogo foi criado nos Estados Unidos e adaptado para o Brasil. No vídeo-game, traficantes do Rio de Janeiro seqüestram e levam para um morro três representantes da Organização das Nações Unidas. A polícia invade o local e é recebida a tiros.

O participante pode escolher o lado do crime: virar bandido para defender a favela sob seu domínio. Quanto mais PM´s matar, mais pontos. A trilha sonora é um funk proibido. Nessa escala de violência, cada um escolhe suas armas: pistolas, fuzis e granadas. Na visão de especialistas, o jogo ensina técnicas de guerra, haja vista o jogador deve ter conhecimento sobre táticas de esconderijo, como se estivesse numa guerrilha.

O jogo “Everquest” leva o jogador ao total desvirtuamento e conflitos psicológicos “pesados”; pois as tarefas que este recebe, podem ser boas ou más. As más vão de mentiras, subornos e até assassinatos, que muitas vezes depois de executados, o jogador fica sabendo (ou não) que era apenas uma armadilha para ser testado para entrar em um clã (grupo).

Os jogos violentos ou que tragam a tônica da violência são capazes de formar indivíduos agressivos, sobressaindo evidente que é forte o seu poder de influência sobre o psiquismo, reforçando atitudes agressivas em certos indivíduos e grupos sociais.

Aviso de amigo, Procon: com quase dez anos de estrada, não há um jovem que ainda não tenha jogado CS e recebido “treinamento de guerrilha”. Vocês estão mais atrasados que relógio de camelô com bateria xingling. Outro aviso: joguem Portal. Tem uma cena terrível onde o jogador deve atirar no incinerador o seu melhor amigo, assassinando-o de maneira repulsiva e fria. Vocês vão querer proibir este também.

Conforme o texto no site, os cidadãos de Goiás já estão sendo instruídos a reportar qualquer ocorrência de comercialização destes jogos às autoridades responsáveis. Mas esta é uma medida que afeta o país inteiro.

Agora é a hora que você espera que eu brade palavras de ordem para que todos divulguem, reclamem publicamente, façam suas vozes serem ouvidas, mandem emails para os resposáveis etc. Ok, façam isso se quiserem. Mas eu pessoalmente não acredito que resultará em qualquer efeito positivo. O povo, como vocês bem sabem, só serve para duas coisas: votar e pagar imposto. A única maneira dessa situação ser revertida é com a intervenção de gente que tem grana, porque grana é igual a voz. A Electronic Arts, que é quem publica os jogos da Valve no Brasil, seria a mais indicada, já que isso diz respeito diretamente a um dos produtos dela. A Microsoft também. Apesar de não ter à primeira vista nada a ver com a história, esta decisão do Procon é prejudicial ao mercado de games no Brasil, onde a Microsoft é a big player, está investindo pesado e quer ver retorno e prosperidade. Um retrocesso não vai ser nada bom para ela também.

Sem contar que a qualquer momento um funcionário do Procon pode chegar em casa e ver o filho serrando alguém ao meio em Gears of War, aí já viu.

É, amigos. No país do carnaval, quem dança somos nós.

[Valeu ao Gil, ao GUS e aos leitores que enviaram pelo formulário de contato antes que eu visse essa notícia em algum outro lugar. E valeu ao Lef também, que já tinha começado a escrever este post quando eu tiranamente disse que eu queria escrevê-lo.]

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