Entre as três conferências da E3 deste ano, a Sony teve o melhor palco, o melhor som, o show mais bem amarrado e também o melhor mestre de cerimônias: Jack Tretton. Em se tratando de jogo novo (leia-se: revelado na conferência), também teve o mais promissor — MAG: Massive Action Game. Ainda que no conteúdo geral, na soma das partes, ela não tenha superado a Microsoft, ela trouxe um elemento que fez com que a sua conferência tenha sido a que eu mais gostei de assistir: humildade.

O mestre de cerimônias foi Jack Tretton, presidente da Sony Computer Entertainment of America. Ele assumiu o comando da conferência inteira, como um apresentador mesmo, e falou por cerca de 80% do tempo. A da Nintendo não teve um mestre de cerimônias, e a da Microsoft até teve, mas o cara não falou mais do que uns 40% do tempo. O que é um resultado positivo para todo mundo, na verdade, já que Tretton foi de longe o mais empático de todos. Cinco minutos depois dele ter começado a falar, eu já tinha dado uma ou duas boas risadas e já estava “em sintonia” com ele. É estranho falar disso, mas eu acho que esse foi um fator dos mais importantes para eu ter apreciado tanto a conferência da Sony.

Dito isso, sim, mesmo ele começou a ficar enjoativo perto do final. Mas não vou reclamar disso.

Um último aspecto digno de nota antes de citar os jogos em si: o trabalho visual e sonoro. O palco era relativamente pequeno. Tinha uma pequena área circular onde Tretton ficava, em pé, apresentando a conferência, e um stand onde repousava um PS3 e um DualShock 3 pretos. Atrás deles, no entanto, uma gigantesca parede com telas de todos os tamanhos espalhados. Por vezes, essas telas trabalhavam todas em conjunto, mostrando partes diferentes de uma única imagem, e por vezes mostravam todas a mesma imagem. As luzes que emanavam das telas também contribuíram para diferenciar os diferentes momentos da conferência. Quando era hora de falar de PS2, o ambiente ficava todo azul. Amarelo era para o PSP e vermelho, PS3. Tudo extremamente bonito, e com um som alto e envolvente (tanto que deu pra notar mesmo assistindo por uma janelinha de 400×300 em streaming).

» Começando bem

Enquanto a conferência da Nintendo começou com imagens aleatórias de dezenas de velhinhos, crianças e mulheres de todas as etnias possíveis e imagináveis, uma coisa quase nojenta de TÃO feliz e politicamente correta, a da Sony começou com um barulho ensurdecedor de tiros e explosões. Eu sou o tipo de cara que prefere um LocoRoco do que um Resistance, mas os tiros e a destruição tornaram tudo muito mais empolgante para o lado da Sony. A Nintendo não empolgou em momento algum, e a Microsoft fez umas tentativas muito forçadas de causar uma certa emoção (embora tenham tido sucesso em algumas).

Desculpe fazer tantos comparativos com a conferência da Nintendo, mas tem mais uma coisa que eu preciso dizer: durante o livemicroblog que eu fiz da conferência dela, o pessoal que comentou no Plurk dizia mais ou menos assim “tá, mas e os jogos! Mostrem jogos!”. Na da Sony eu quase quis que eles parassem de mostrar jogos, porque foi bastante coisa.

» PS3

Resistance 2, o primeiro a ser mostrado, começou pauleira. Imagine como seria Cloverfield – O Jogo, só que com uma esquadrão armado em vez de meia dúzia de jovens em pânico. Em outras palavras, imagine você tendo que derrubar um monstro literalmente do tamanho de um prédio. Os ambientes externos são enormes e muito detalhados (apesar de manterem sempre aquela cor marrom-devastação que tanto faz os FPSs parecerem todos iguais). Dentro dos prédios tudo parecia mais feio, mas esse problema foi logo resolvido quando o monstro enfiou a mão pela parede, agarrou o personagem e o arremessou a praticamente um quilômetro de distância. Grande trailer.

LittleBigPlanet, também conhecido como “o jogo que parece tão bom que vai acabar me fazendo comprar um PS3 só por causa dele”, teve a apresentação mais criativa que eu jamais poderia conceber. Em vez de mostrar uma penca de fases aleatórias, o pessoal da Media Molecule criou uma fase inteira especialmente para ser usada na conferência. A fase era, na verdade, um acompanhamento para o que Tretton chamou (e Reggie, da Nintendo, exemplificara uma hora antes) de “a parte chata da E3″: os números e gráficos.

Nos primeiros passos do Sackboy (apelido do seu personagem em LBP), ele entra em uma espécie de sala sem teto, com piso e paredes brancas, e uns quadrados coloridos no chão. O primeiro era verde (ou não era, não importa), e ao pisar nele vemos uma coluna daquela cor se erguer no ar. É a primeira coluna das vendas do PS3, ou o que quer que seja que o Tretton queria mostrar. Subitamente eu estava louco para saber o quanto eles tinham vendido, porque queria que o Sackboy pisasse em outro quadradinho e subisse. No quarto quadrado, o tal do número era tão alto que a câmera teve que acompanhar. Lá do alto da coluna do gráfico da Sony, Sackboy pulou para uma outra parte da fase.

Uma jangadinha com o número 29.99 o esperava em um ponto mais adiante. Tratava-se do anúncio da linha Greatest Hits do PS3. Enquanto Sackboy navegava na jangadinha, os títulos a serem contemplados com o descontão apareciam em pequenas aberturas do cenário, sob os nomes de suas produtoras (mais tarde eu posto a notícia com os nomes de todos os jogos, mas inclui coisas como Assassin’s Creed e Elder Scrolls IV: Oblivion). Enquanto passava, Sackboy apontava alegremente para todos os pontos de interesse, mostrando mais personalidade do que a maioria dos personagens de games desprovidos de falas que eu consigo me lembrar nesse momento.

E assim foi, com todos os anúncios burocráticos que a Sony tinha pra fazer. Pela primeira vez na vida, eu quis que uma conferência fosse feita de uma hora e meia de gráficos e estatísticas apresentados num telão. Como disse um cara aleatório pela internet: LBP = PowerPoint Killer.

Outro anúncio feito durante essa fase foi o de que a Sony vai “voltar a sua atenção para a América Latina”. Nenhum país foi citado, nem nada além disso. Em todo caso, notícia ruim é que não há de ser.

» PS2

O assunto se volta para o PS2, e é anunciados um novo bundle para o console (com LEGO Batman). Tretton confirma que mais de 130 títulos serão lançados para ele em 2008, e mostra alguns (destaque para Yakuza 2).

» PlayStation Network

A primeira coisa a ser anunciada é o login universal. Você terá apenas um cadastro para tudo que for oferecido dentro da PSN, incluindo os jogos online. Nada que a Xbox Live já não faça. Depois foi mostrado Ratchet & Clank Future: Quest For Booty, um jogo para download pela rede muito bonito e variado. Sequência direta de Tools of Destruction[bb].

Na esteira, vêm vários jogos que serão vendidos digitalmente. Jack Tretton explicou (ou deu a desculpa) que o objetivo da Sony com esses jogos da PSN é a qualidae, e não lotar de porcarias só pra dizer que têm mais jogos que o concorrente. Ouch. Não sei se a Microsoft aprova qualquer coisa na Live com esse objetivo, mas o fato é que tem mesmo muito joguinho de merda lá. E, de fato, todos os jogos da PSN apresentados no vídeo que foi exibido a seguir pareceram bastante interessantes.

Gran Turismo TV é uma nova atração da rede a ser disponibilizada em 1º de Agosto. Se eu gostasse de automobilismo, provavelmente teria ficado empolgadíssimo. Trata-se de uma opção, dentro do GT5 Prologue, que dá acesso a vários programas de TV, transmissões de corridas reais e coisas assim. Bem nicho, com certeza pouca gente vai acessar, mas não deixa de ser uma ótima adição.

Sobre a Home, não foi dada nenhuma data nova. Mas Trinnen afirmou que a nossa paciência vai ser recompensada — usando estars palavras. Um novo trailer foi exibido, cuja única novidade era o que muita gente já sabia: salas temáticas para alguns games, como Warhawk, Resistance e Uncharted.

Aí mostraram a loja de vídeos da PSN. Não vai ter tanto conteúdo quanto a Live, mas tem uma vantagem: você pode baixar os filmes e programas de TV para assistir no PSP ou outros aparelhos. E o acervo também não pareceu tão fraquinho assim. O legal é que esse anúncio trazia uma surpresa: a data de lançamento dessa Video Store é… hoje! A essa hora, já está disponível!

» PSP

Foi anuncado um novo bundle (Ratchet & Clank + um filme + um vale para baixar EchoChrome de graça) e novo jogo da franquia Resistance. Um vídeo foi mostrado, com os principais destaques do portátil para esse ano (destaque para LocoRoco 2, Patapon 2 e Valkyrie Chronicles) e ficou por isso mesmo.

» PS3 de novo

Falaram brevemente sobre o Life With PlayStation e anunciaram uma mini-parceria com o Google. Não deram muito destaque para isso. Em seguida foi demonstrado DC Universe Online, o jogo mais feio e ridículo que eu já vi dar as caras no PS3. Animações terríveis (teve um hora que um cara deu um soco em outro, e esse outro só foi “voar” por causa do soco quase um segundo depois, e ainda todo “duro”), gráficos risíveis e explosões de PS1. É um título em estágio inicial de desenvolvimento, sim, mas foi exibido e portanto pode ser julgado. E o julgamento é: tão feio quanto o anão da dança do quadrado.

Jack então explica que a Sony finalmente se decidiu e vai dar suporte à versão de 80GB do PS3 quase como se ela fosse a única. O preço dela vai ficar em 399 dólares. Na sequência disso foi exibido um vídeo com vários desenvolvedores explicando exatamente porquê o PS3 é tão maravilhoso e etc e tal. Essa parte tinha tudo para ficar forçadíssima e envolver altos índices de vergonha alheia, mas até que não ficou ruim. Quando se pensa no PS3 como uma máquina feita para durar dez anos, e se põe tudo nessa perspectiva, subitamente ela não parece mais tão ruim quanto poderia parecer. A questão é: vai mesmo durar dez anos?

A próxima coisa é mais um vídeo de jogos em destaque. E por esse vídeo eu vi que a suposta falta de jogos do PS3 é mais lenda do que parece. De 007: Quantum of Solace a MotorStorm: Pacific Rift, de SOCOM a BoobCalibur 4, de Naruto ao esperadíssimo (por mim) Mirror’s Edge, a biblioteca de lançamentos já mostra uma grande variedade. E, como bem disse Trinnen no início da conferência, quando o PS1 completou dois anos ele não tinha ainda muitos dos jogos que seriam chaves para o seu sucesso, como Final Fantasy VII e GTA 3.

» Reta final

Encaminhando-se para o fim da apresentação, é hora de mostrar mais algumas novidades exclusivíssimas para PS3. Começando por God of War 3, que teve exibido um teaser trailer safadíssimo que não mostrou porcaria alguma.

Logo depois foi mostrado o promissor jogo de ação Infamous, da Sucker Punch (famosa por Sly Cooper[bb] no PS2). Eu juro que não entendi exatamente qual é a do jogo, mas é uma espécie de ação em terceira pessoa muito bacana, com superpoderes. Lembrou um pouco Crackdown, embora seja bem menos colorido.

E, para terminar de verdade, o jogo mais impressionante da conferência, quiçá de todas as conferências. MAG: Massive Action Game. Não sei se tem single-player (parece que não), mas o multi impressiona. Serão partidas com 256 jogadores! Eles se dividirão em esquadrões de oito, e o jogador com maior experiência dentro de cada esquadrão será o líder. O trailer mostrado não continha nada de gameplay, mas o interessante aqui não são os gráficos, é o conceito: se o jogo tiver metade daquela ação tática massiva, será o rei do multiplayer em consoles. Ponto final.

E assim terminou a conferência que eu mais gostei de assistir nesta E3 (não vi a da EA, falaram que foi surpreendentemente boa). Apesar de não ter sido tão boa quanto a da Microsoft no quesito novidades bombásticas (e nem falo só de FFXIII), foi realmente um ótimo show, onde a Sony mostrou que está ao menos tentando aprender com seus erros. Focou bastante em jogos, para afastar aquela idéia de que falta jogo para o PS3, e não foi arrogante em momento algum. Não contou vantagem sobre as concorrentes, nem tentou exagerar demais os seus números. Eu nunca gostei muito da Sony, mas com essa E3 ela subiu vários pontos no meu conceito.

As últimas palavras de Jack Tretton antes de encerrar de vez foram: “Se isto é o que temos para mostrar no segundo ano do PS3, imagine no terceiro ou no quarto…”

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