
Lembra do nosso amigo Daniel Trezub, que foi ao Canadá comprar o seu PS3 com Metal Gear Solid 4 e resolveu mandar notícias do front? Pois é, ele mandou notícias de novo, dessa vez contando como foi, de fato, entrar na loja e comprar o tão esperado jogo.
Se você alguma vez já imaginou como deve ser a experiência, a tensão e o sofrimento de acampar na frente de uma loja antes que ela abra, mesmo sem saber se vai sobrar uma unidade do que você quer para você, precisa ler esse texto. Sem contar que ficou muito divertido.
Então leia, depois do continue.
Pelo visto MGS4 nem era pra ser tudo isso que estavam falando. Pelo menos para as lojas aqui do Canadá. Nada de loja aberta à meia-noite, nada sequer de abrir mais cedo no dia 12. A loja da Sony aqui em Montreal, a Sony Style, teria apenas três unidades do bundle PS3+jogo. A própria Sony teria apenas três unidades do bundle, não sei se fui claro.
A Futureshop que tem aqui perto de onde estou hospedado receberia sete unidades do bundle e não se sabe quantas do jogo em si, de acordo com um dos vendedores, consultando os pedidos. Sete unidades na quinta, dia 12, e mais sete na sexta, dia 13. E a loja abriria normalmente às 10 da manhã.
Eram quinze para as nove e eu estava lá, sentado em uma cadeira em frente à porta da loja. Eu sabia que essa seria provavelmente a única chance que eu teria de comprar o meu PS3, então resolvi que era um bundle o meu escolhido.
Levei um livro e esperei. Perto das 9:00, os funcionários começaram a chegar. Lá pelas 9:15 apareceu um moleque, de uns 13 ou 14 anos. Chegou, olhou os horários de funcionamento colados na porta e ficou por ali, como quem não quer nada. Na minha cabeça já contabilizei um console a menos. Mas OK, eu tinha chegado primeiro, então estava tranquilo.
Os funcionários chegavam e entravam pela porta da frente da loja, mesmo. Fiquei de olho. Já tinha estado nessa loja algumas vezes e já sabia onde era a seção de videogames e onde ficavam os PS3. Um cara vestido de camisa social e sapato chegou. O mesmo ritual. Olhou os horários, olhou no relógio e ficou por ali. Dois outros, vestidos de skatistas, chegaram logo depois. Cabelo desenhado e tudo. Um pouco mais tarde, outro cara, aparentemente normal, chegou e sentou no banco à minha frente. Um senhor que poderia fazer papel de mestre Fu-man-chu em filmes do Jackie Chan parou perto da escada rolante.
Dentro da loja os vendedores apareciam e olhavam para nós como se fôssemos atrações do zoológico. Como a porta tinha uma fresta aberta, pude ouví-los perguntando uns para os outros o que estava acontecendo. Aparentemente eles não sabiam. Depois de um tempo, um deles informou aos outros que era o lançamento de um jogo do PS3. “Aaah…”, foi a expressão geral. A mulher que imagino ser a gerente da loja pegou o microfone e avisou: “Pessoal, fiquem alertas que hoje tem lançamento de jogo, e já tem algumas pessoas aqui do lado de fora”.
Nessa hora já éramos quase quinze pessoas. Meu livro já estava na mochila há um tempo, e eu só imaginava se iria conseguir pegar meu console na hora que a loja abrisse. As pessoas já se posicionavam perto da porta. Meus inimigos tomavam posição. Faltavam quinze minutos para as 10:00.Analisei a porta da Futureshop. É uma porta grande, dividida ao meio por um pilar. Cada uma das duas metades tem uns três ou quatro metros. Os funcionários entravam e saíam pelo lado esquerdo. Apostei minhas fichas ali, e achei que ali era por onde a grande porta de correr começaria a ser aberta. Levantei e me posicionei ali, na frente da abertura usada pelos funcionários. Analisei o layout da loja. “Se eu entrar por aqui, é só desviar dos caixas e seguir reto até o fundo. Se eu contornar os caixas, perco tempo”. A estratégia estava traçada. Faltavam dez minutos.
A gerente aproximou-se com um molho de chaves na mão. Foi direto para o meio da porta. Todo mundo se mexeu naquela direção, menos eu. Ela colocou a chave na fechadura, a tensão do lado de fora aumentando, e simplesmente destrancou-a. Dirigiu-se, então, para a extremidade direita da porta. Mais movimentação do lado de fora naquela direção. “Eu sei que vão abrir aqui primeiro, é lógico, aqui já está aberto. E nem são dez horas ainda. Relaxe, Daniel, relaxe”. Ela destrancou a fechadura e voltou para dentro, sumindo entre as prateleiras.
À minha frente, um daqueles detectores anti-furto tinha um cartaz que mostrava MGS4, o preço e a data de lançamento. “Eu sei, eu sei. Sem pressão, por favor”. Notei que onde eu estava parado era, na verdade, a saída da loja. Por isso eu teria que desviar dos caixas. “Agora, paciência.” Ainda assim achei que era por ali que eu entraria.Faltavam cinco minutos. Em um dos caixas um funcionário olhava a caixa do jogo. Olhou, leu, virou, passou no leitor de código de barras. Conferiu os dados na tela, digitou alguma coisa e levou o jogo para o fundo da loja. Não sei quantas pessoas se amontoavam do lado de fora, mas só de passar o olho sabia que não teria videogame para todo mundo. Eu suava frio, meu coração acelerava, e lembrei das aulas de educação física do colégio, das corridas e competições de atletismo. Ajeitei a mochila nas costas, coloquei o MP3 para dentro da camiseta e tracei novamente meu trajeto até meu PS3.
Já podia ouvir música tocando lá dentro, os funcionários aparentemente prontos para mais um dia de trabalho. Conseguia ver o PS3 de demonstração ligado lá atrás, assim como o Wii e o Xbox. “Abrindo a loja”, a gerente anuniou no microfone do caixa à minha frente. Um burburinho aumentou do lado de fora. Vi a mulher dirigindo-se para mim, com um sorriso no rosto. Afastou a porta de correr apenas o suficiente para que uma pessoa passasse e, sorrindo, me disse “bonjour” e fez sinal para que eu entrasse.
Entrei quase correndo, passei pelos caixas e por algumas prateleiras e cheguei à seção de videogames. O cara que tinha me atendido no dia anterior estava lá, e só perguntei “where is it?”. Ele me apontou um corredor logo em frente. Havia seis caixas empilhadas. Não sei como o povo já estava ali, mas consegui pegar a alça do primeiro console da pilha. Agarrei a alça plástica e me virei para prourar o vendedor e dirigir-me ao caixa, quando senti uma certa resistência na caixa. Quando olhei, o moleque de 13 anos que havia chegado pouco depois de mim estava com as duas mãos imundas e nojentas na minha caixa, uma de cada lado, abaixado. Parei, olhei para ele e disse calmamente “No way”. Ele largou meu videogame, e dei de cara com o vendedor.
“E daí, fez seu dia?”, ele perguntou. “Com certeza”, respondi, enquanto entregava meu cartão de crédito.
Depois notei que muitas das pesoas que estavam ali não estavam atrás do bundle, mas sim do jogo. Mesmo assim todos os seis bundles foram vendidos ali, na hora. Pessoas perguntavam se não tinha mais, se não tinha mais jogo, se não teria a edição especial. “Amanhã, pessoal”, respondia o vendedor. E eu parado com o meu PS3 no chão, seguro entre minhas pernas, aguardando enquanto $499,99 mais impostos eram debitados no meu cartão.