Sonic X-treme

Acho a SEGA uma empresa muito peculiar. Estranha. Inconstante. Capaz de criar conceitos fantásticos e apaixonantes, e ao mesmo tempo autora de burradas imensas.

Sei que é clichê, mas fico indignado principalmente com a destruição que tem sido imposta ao Sonic. Um dos mascotes mais originais e queridos de todos os tempos obrigado a estrelar porcarias como Sonic the Hedgehog (o de 2006), Sonic Heroes e outras tantas melecas por aí. Veja só, o principal trunfo recente do ouriço (ouriço, não porco-espinho!) é a participação em Super Smash Bros. Brawl que, por sua vez, é um jogo da… Nintendo!

Claro que o fato é bacana, mas para quem cresceu sob a sombra da batalha entre Sega e Nintendo nas gerações 8 e 16 bits não deixa de ser algo estranho, de certa forma fora de lugar.

Enfim, meu ponto hoje é o seguinte: acreditem, poderia ser pior.

Uma das muitas teorias a respeito do fracasso do Saturno diz que ele se deve à ausência de um título de primeira linha do Sonic produzido especificamente para o console de 32 bits.

Bem que a Sega tentou. Muita gente deve lembrar de um tal de Sonic X-treme, anunciado na E3 1996. Há pouco tempo até, uma cópia da versão beta do jogo (a única?) foi vendida a um preço astronômico no eBay. Fato é que esta tentativa camufla uma história repleta de intrigas e confusões (se fosse novela das oito teria sexo e Rio de Janeiro também).

Por volta de 1995 a Sega decidiu criar um game tridimensional do Sonic para ser carro-chefe do Saturno — mais ou menos como a Big N fez com Super Mario 64. A tarefa foi delegada ao Sega Technical Institute, o tal do estúdio STI, que fez o excelente Sonic 2, Comix Zone e o dúbio Sonic Spinball. Detalhe: teria também versão para PC.

Aí começou a baderna. A equipe de desenvolvimento foi dividida em duas: uma cuidaria da engine dos segmentos de plataforma, enquanto a outra trabalharia isoladamente na engine para batalhas contra chefe. Os dois núcleos compartilhavam apenas dados básicos, como o modelo de Sonic utilizado. No final da brincadeira, iam pegar tudo e colocar junto. Mais ou menos como 99,8% dos trabalhos de faculdade são feitos por aí: cada um faz sua parte, a gente junta e grampeia.

Vamos aos detalhes. O motor usado para os trechos plataforma teria movimentação e 360 graus, tanto do Sonic quanto da câmera. Pesado para o Saturno? Muito provavelmente. Mas a idéia foi levada adiante.

O sistema para chefes foi mais experimentalista, almejando oferecer combates por perspectivas diversas. Durante o desenvolvimento da criança o responsável pelo trabalho, Chris Coffin, foi apresentado a uma versão preliminar de NiGHTS. Paixão à primeira vista. Tanto que decidiu fazer algo parecido com Sonic X-treme.

Mais uma telinha de Sonic X-tremePor conta de desorganização da Sega e ciúmes bobos do fraudulento Yuji Naka (que sozinho não conseguiria nem criar o nariz do Sonic, mas leva o crédito pelo figura até hoje), o STI não teve acesso às ferramentas de criação de NiGHTS. Isso obrigou o estúdio gringo a se virar e tentar mimetizar a engine.

Claro que tal mudança acarretou em atrasos e outras tantas picuinhas internas. Ultimamente, o diretor do estúdio Chris Senn, abandonou o projeto após a demissão do colega Ofer Alon. Os códigos criados por eles até então foram simplesmente deixados de lado e a engine para chefes virou o jogo em si. Do Saturno apenas. Ok.

Quem se lembra das fotos e trailers (ou vê-los logo abaixo) há de perceber que parecia por demais com Bug!, outro jogo de aventura do Saturno. Simpático, mas impraticável levando em conta a alta velocidade de movimento do Sonic.

Permita-me tirar a carta da manga: Senn largou apenas a produção de Sonic X-treme no 32-bits. A edição para computadores continuou viva. Ou seja, durante certo período tivemos duas versões diferentes do mesmo jogo sendo produzidas. WTF? Coisas da Sega…

O trabalho realizado por Senn é o que ficou mais conhecido. Ele é o que adotou o exótico filtro de câmera chamado olho-de-peixe que parece inserir o cenário dentro de um globo de vidro. No centro a imagem é perfeita, conforme se aproxima das extremidades ela distorce. Nóia pura.

Final expresso. A versão de Saturno virou poeira estelar e o tal disco vendido a milhares de doletas. Senn trabalhou que nem um doido, pegou pneumonia, atrasou ainda mais o jogo e a Sega falou “Ah, agora não tem mais graça. Deixa quieto. Valeu”.

Imagine que este texto é um daqueles filmes baseados em fatos reais. No final, sempre rolam aquelas imagens que congelam e legendas contando o que aconteceu com cada um. Este é o momento.

» Sonic X-treme para Saturno
Não foi muito pra frente. Abaixo um vídeo e algumas fotos feiosas da tal versão beta pela qual algum maluco pagou uma fortuna.

» Sonic X-treme para PC
Só para deixar claro: durante algum tempo ela também foi de Saturno. É a versão que a gente mais conhece. Há uns dois anos, o diretor Chris Senn foi acometido por um arroubo de benevolência e criou um site totalmente dedicado a disponibilizar conteúdo do desenvolvimento do jogo: o Sonic Xtreme Compendium (SXC).

Lá dá pra conferir dezenas de artes conceituais, renders 3D, músicas prontas e até os sete (!!) enredos diferentes criados pro jogo. Tinha uma que colocava o ridículo Fang the Sniper (ou Nack the Weasel, tanto faz) como um dos chefes e outra que incluía os personagens bobos criados pros gibis do Sonic. Blergh!

Tem mais. O tal do Chris Senn decidiu que ia terminar nem que fosse extra-oficialmente o jogo. Assim nasceu o Project S, o qual o diretor vem tocando desde 2006 e trará como resultado final algo muito próximo do que teria sido e não foi. Por enquanto não há vídeos ou fotos do Project S, muito menos data de lançamento.

Abaixo, vídeos e fotinhos da versão de Chris Senn para Sonic X-treme. Tem até umas com um golpe bacanudo no qual o Sonic virara uma bola de espetos.

» EXTRA

Durante minhas andanças digitais em busca de imagens e informações sobre o jogo da coluna desta semana, acabei trombando com um fangame muito interessante: Sonic Robo Blast 2. Joguei um pouco e parece um mod bem feito de Doom (!) que coloca Sonic, Tails e Knuckles em cenários 3D. Quase tão bom quanto os superestimados Sonic Adventures.