Videogame: a coisa mais importante entre as menos importantes
O Vinícius falou, em outra Quarta Indie, sobre o maior festival dos jogos indie, o IGF (Indie Games Festival). Com seu prêmio maior no valor de 20.000 dólares, sua importância para o mercado indie de games é indiscutível. Estar com um jogo entre os finalistas é uma grande honra para seu criador, especialmente se ele estiver concorrendo ao Seumas McNally Grand Prize, o grande prêmio do festival.
Mas se o Vinícius já falou sobre esse festival, porque eu voltei a tocar no assunto? Para chamar a atenção para dois jogos em especial, que foram indicados ao grande prêmio: World of Goo e Crayon Physics Deluxe. Dois dos favoritos de muita gente: eu mesma torço bastante pelo Crayon Physics Deluxe. E o que eles têm em comum? Ao menos uma coisa: ambos foram desenvolvidos com base em protótipos desenvolvidos em uma semana para o Experimental Gameplay Project. É, você leu certo: uma semana.
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World of Goo foi desenvolvido com base no projeto Tower of Goo (que teve uma versão ampliada lançada depois, a versão Unlimited), enquanto Crayon Physics Deluxe foi desenvolvido tendo como base o jogo Crayon Physics. Ambos são mais limitados do que suas versões que chegaram à indicação ao grande prêmio do IGF, claro, mas a mecânica de jogo está toda lá: em Tower of Goo você constrói torres juntando “Goos”, em Crayon Physics você deve fazer a bolinha chegar à estrela fazendo-a se movimentar com a ajuda de quadrados desenhados por você. World of Goo possui desafios maiores a serem vencidos, como você pode conferir no trailer, e Crayon Physics Deluxe permite que você desenhe qualquer figura, e não apenas quadrados (veja mais no vídeo abaixo). Melhorias que precisaram de mais tempo para serem feitas, mas cujas idéias geniais foram executadas inicialmente em uma semana.
Crayon Physics Deluxe sendo jogado em um Tablet PC. Impressionante.
Afinal, o que é esse tal de Experimental Gameplay Project? Bom, em primeiro lugar, é um desses projetos cujo nome de fato condiz com o seu propósito: é um projeto de jogabilidade experimental. São jogos que devem atender a três regras básicas: serem desenvolvidos em uma semana, terem sido feitos por uma única pessoa e que devem ter como foco um tema comum, como “gravidade”,”desenhos de criança”,”vegetação”,”robôs”, etc. O Experimental Gameplay Project surgiu no outono de 2005, desenvolvido por alguns estudantes do Centro de Tecnologia e Entretenimento da Universidade Carnegie Mellon, e se tornou famoso ao mostrar o coração do desenvolvimento indie: seu lado inovador.
Embora “indie” seja uma palavra usada para designar qualquer jogo produzido de maneira independente, ela possui um significado maior para as pessoas que estão nesse meio: não é apenas a independência de dinheiro que importa, mas a independência de idéias. Se fosse para apenas produzir jogos como aqueles feitos pelas grandes desenvolvedoras, o mercado indie seria apenas um lugar escuro e vazio em algum canto da internet, já que ofereceria essencialmente o mesmo que os outros, mas com uma qualidade muito inferior devido às suas restrições de orçamento. Se você observar o grande crescimento dos jogos indie (o IGF desse ano teve 173 inscritos, mais do que em qualquer outro ano), você vai perceber que não é esse o caso.
Num mundo governado pelo dinheiro e seu poder, tentar algo sem a ajuda das grandes corporações pode ser algo difícil, especialmente no caso do mercado de jogos, que atualmente podem custar milhões de dólares para serem feitos. Ao mesmo tempo, é uma experiência libertadora: quando não se faz algo pelo dinheiro, você não precisa se preocupar se existe um número X de pessoas que irão gostar do seu jogo e comprá-lo, se a crítica não vai entendê-lo, se existiriá retorno suficiente para custear seu próximo jogo. Livrando-se de preocupações como essa, você passa a pensar nas questões que realmente importam: “Eu irei me divertir com esse jogo?”,”Será legal desenvolvê-lo?”,”O que eu posso mostrar que seja pelo menos um pouco diferente dos outros jogos que estão no mercado?”, “Essa fase é realmente legal de ser jogada?”.
O Experimental Gameplay Project vai além: você não é limitado apenas pelo dinheiro, mas pelo tempo. Porque a sua expectativa em relação ao jogo cresce de maneira exponencial com o tempo que você dedica a ele: você se dedica uma semana a um projeto, ele não está perfeito, mas você está feliz pelo que conseguiu com o projeto; você se dedica um mês, e de repente aqueles bugs parecem incomodar mais; você se dedica um ano e de repente se sente inconformado pelo fato do seu jogo não lavar o carro e limpar a casa para você. Tempo é um recurso tão precioso quanto o capital, e da mesma maneira acaba por impor suas restrições aos desenvolvedores.
Quando se limita o desenvolvimento do jogo a uma semana, novamente o desenvolvedor se liberta de questões que acabam por ofuscar seu foco: o jogo. Quando se limita todo o resto, é possível deixar que as idéias surjam sem restrições, e é nessas condições que podem surgir grandes jogos, com conceitos que ficariam escondidos nas mentes de seus criadores se eles tivessem de se preocupar com seus recursos de maneira excessiva, como o tempo e o dinheiro. É claro que, para tornar o jogo completo de maneira que o maior número possível de pessoas goste de jogá-lo, é necessário tempo e dinheiro. Mas o Experimental Gameplay Project está aí para lembrar a qualquer desenvolvedor, indie ou não, que o que importa, mais do que outro aspecto de um jogo, é o seu conceito.
E o que você, leitor, tem a ver com tudo isso? Visite o projeto, jogue alguns jogos, e você provavelmente terá uma experiência diferente do que a maioria dos jogos comerciais de hoje em dia oferece. Jogue 5, 10, 20 minutos. Jogue durante horas. Mas jogue. O jogador sedento de inovação dentro de você agradece.
Cindy Dalfovo (codinome: miwi; idade: 20 anos) começou como leitora, comentou algumas vezes e se ofereceu para continuar com esta coluna que você acabou de ler, quando o saudoso Vinícius Silva teve que parar de escrevê-la. Cliquem aqui para conhecê-la um pouquinho melhor, afinal, vocês vão se ver toda quarta-feira.
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