Uma das maiores promessas de 2008, um dos jogos que mais gerou expectativa e gritos de “DO WANT!”, uma das maiores quebras de paradigma da história do gênero mais prolífico dos games – o FPS. Com tantas coisas que fazem com que Mirror’s Edge não seja “apenas” mais um dos grandes lançamentos da temporada, é difícil encontrar um lugar certo para ele na ordem natural dos jogos que você deveria (ou não) jogar urgentemente.
Mas a gente tentou.

Essa queda provavelmente não será muito saudável.
[+] Mobilidade. O que você já suspeitava é verdade: Mirror’s Edge é simplesmente brilhante no que diz respeito à movimentação. Bastam dez minutos para se acostumar com os controles, e então você está fazendo coisas que até Prince of Persia duvida. A jogabilidade flui. Pular de um prédio a outro a quarenta andares de altura realmente te deixa com vertigem. O simples fato de conseguir ver seus pés e mãos faz toda a diferença, à medida em que isso te faz ter consciência do seu próprio corpo in-game, e isso é simplesmente animal. Por isso o modo Time Trial é considerado a cereja do bolo: você simplesmente voa pelas fases, tendo como único objetivo achar os melhores caminhos – e conseguir traçá-los.
[+] Você Vai Lembrar de Mim. Isso meio que subentende-se no tópico anterior, mas não custa reforçar caso não tenha ficado claro: independente da qualidade geral da obra, Mirror’s Edge é um jogo que tem o seu lugar garantido na história dos games. Nunca um jogo trouxe tanta inovação à jogabilidade em primeira pessoa, e ele será lembrado por isso ainda por muitas gerações.
[+] In Living Colour. Os consoles e placas de vídeo atuais podem exibir um número ridiculamente enorme de cores, no entanto uma boa parte dos jogos mais populares acha que qualquer coisa além de marrom, preto, tons variados de cinza e um pouco de laranja (nas explosões) é exagero. Mirror’s Edge se passa em uma cidade onde as cores são usadas de modo incrível. Eu poderia dizer que é “quase indescritível”, mas estaria mentindo. É fácil descrever, mas não tem a menor graça até que você veja. É um paraíso de interpretações para cromaterapeutas (e uma beleza de se ver para os gamers). Sem contar o branco, que chega a ser ofuscante em vários momentos. Citar as cores como um ponto favorável pode parecer exagero de quem quer falar bem do jogo a qualquer custo, mas, acredite, é lindo. (E o mesmo vale para os gráficos como um todo – qualidade das texturas, efeitos de foco e motion blur, flare do sol etc.)

Esse chute também não foi muito saudável… para o policial.
[-] Alone in The Light. Shoppings, metrô, diversos prédios comerciais, um galpão privado de uma empresa de transporte. Todos estes são cenários pelos quais você passa durante o jogo, em variados horários do dia, e, exceto pela protagonista Faith, os policiais que atuam como inimigos e uns 5 ou 6 personagens-chave (que basicamente só aparecem em cutscenes), não se vê uma mísera pessoa viva. O lindo mundo de Mirror’s Edge é morto. Mesmo quando você está no topo de um prédio de poucos andares e olha para a rua, é possível ver os carros, mas as calçadas estão vazias. Seria infinitamente mais legal correr alucinado pelos escritórios de um prédio rico qualquer se houvessem pessoas olhando perplexas para aquela atividade incomum, mas em vez disso somos forçados a simplesmente imaginar como seria. Essa foi uma sensação que eu tive durante o jogo todo: “deveria haver pessoas aqui”.
[-] Reprise. Outra sensação corriqueira durante o jogo foi a clássica “já fiz isso antes”. Não adianta, é inevitável: os poderes de Faith são correr (às vezes pelas paredes), pular bastante longe e se agarrar em beiradas. Não dá pra fazer muito com isso em termos de variedade. A jogabilidade, como eu já disse, é ótima, mas, exceto por alguns poucos momentos inspirados, mantém-se praticamente sem variação durante o jogo inteiro.
[-] Bang Bang You’re Dead. Um momento em que ocorre variação na jogabilidade é o momento em que você encontra inimigos e fugir correndo torna-se a opção menos atraente. Aí você corre em direção a um homem de farda armado, aperta o X para entrar em modo câmera-lenta e desarma o infeliz, adquirindo o poder de fogo que outrora fora dele. Nessa hora a coisa desanda. Mirar no analógico direito é um parto (falo do 360, mas assumo que no PS3 a coisa não seja melhor). Os inimigos são absolutamente vesgos, errando 80% dos tiros mesmo a dois metros de distância, mas mesmo assim eles te matarão mais vezes do que seria indicado, simplesmente porque você vai ficar mirando igual a uma senhora vesga de 86 anos de idade com dezoito graus de miopia e Mal de Parkinson avançado. No início do jogo o problema não é tão grave, já que são poucos inimigos e os cenários te favorecem, mas nos últimos capítulos você vai desejar com todas as forças ter esperado pela versão de PC, só para ter a possibilidade de mirar com o mouse.
[-] Bang Bang You’re Dead Again. Por falar em morrer, em Mirror’s Edge morre-se muito, e não só por culpa dos tiroteios. Eu não acho isso ruim, gosto de um bom desafio, mas tem gente que acha irritante. E às vezes é um pouco mesmo.
[-] Novela das 7. Estamos falando aqui de um jogo de ação e exploração, cujo maior triunfo é a jogabilidade. Portanto, a história é um elemento secundário. Mas isso não muda uma das minhas regras de ouro: se você vai me fazer perder tempo com cutscenes em seu jogo, é melhor contar uma história decente. A de Mirror’s Edge parte de uma ótima premissa, mas é cheia de personagens parcos, reviravoltas revoltantes e momentos mongóis. Ok, não é tão ruim quanto as minhas aliterações forçadas estão fazendo parecer, mas não vai chegar nem perto de ganhar algum reconhecimento por roteiro. Pode pular as cutscenes sem medo (até porque elas são feias pra burro, num estilo desenho animado completamente sem graça e diferente do resto do jogo).
Trailer da versão para PC, que dá uma boa idéia dos gráficos dessa versão (no console não há todos esses efeitos de física impressionantes). Clique para ver em HD.
Eis a beleza do nosso novo sistema de resenhas: acabei de analisar um jogo que tem mais itens negativos que positivos. Será ele por isso um jogo ruim, abaixo da média, com o qual você não deveria perder tempo ou dinheiro? Eu não acho, mas isso é para você decidir, analisando a importância de cada item.
Pra mim, Mirror’s Edge é um jogo bom, talvez ótimo, mas não exatamente maravilhoso. É uma experiência ótima para quem procura um single-player. No entanto, mais do que isso, é um interessante exercício de inovação que nos ajuda a pensar além das barreiras que estamos acostumados a assumir em termos de game design. E, por isso mesmo, torna-se um jogo histórico.
Mas se você aceita um conselho, fique com a versão de PC, que saiu hoje mesmo. Ela não foi testada pelo Continue, mas provavelmente a facilidade em mirar nos momentos em que você precisa atirar (e a adição dos efeitos de física mostrados no trailer acima) vai compensar qualquer outra desvantagem que possa existir.
Mirror’s Edge é um jogo produzido pela DICE, publicado pela Electronic Arts e lançado dia 12/11/2008 para Xbox 360 e PlayStation 3 (e para Windows em 13/01/2009). O jogo foi analisado no Xbox 360. Modo história terminado, modo Time Trial experimentado por cerca de duas horas.
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