Videogame: a coisa mais importante entre as menos importantes

Essa semana saiu a notícia de que teremos um novo jogo da série Contra para WiiWare, no velho estilão 2D clássico. Imediatamente começaram a pipocar comentários sobre a dificuldade da série. Eu, particularmente, sempre achei difícil, mas não impossível. Com um pouco de treino e concentração — e muita decoreba dos locais de onde os inimigos surgem –, dá pra zerar sem jogar o controle no chão.
Mas tem alguns jogos que nem assim. Jogos que são difíceis MESMO, que fazem você considerar seriamente submeter o seu caríssimo controle às leis da gravidade e inércia simultaneamente, formando uma trajetória arqueada que somente será interrompida pela parede, com o único objetivo de extravasar um pouco da raiva e frustração.
A discussão desse fim de semana (aliás, já deu um abraço na sua mãe hoje?) é sobre isso. Qual o jogo mais difícil que você lembra de ter jogado, seja num passado recente ou distante? O que faz dele tão difícil? Essa dificuldade se traduz em frustração ou desafio? Você desistiu ou superou a dificuldade?
É claro que há alguns jogos clichês numa discussão como essa. O primeiro que citar Battletoads (ou o próprio Contra) ganha o Troféu Previsibilidade. Então, para dar aquela refrescada na mente e ajudar você a se lembrar dos jogos mais desesperadores de todos os tempos, fica o link para uma lista do GameDaily com 25 jogos casca grossa.
Depois do continue eu dou início ao papo, falando sobre um momento em específico que quase me fez desistir em um dos meus jogos favoritos ever, e que eu tenho certeza que vai ser familiar a muita gente.
O jogo é Call of Duty 4: Modern Warfare (embora eu não vá citar muito da história, é bom não continuar lendo se não quiser SPOILERS). Logo no início, a sua primeira “missão” é correr por um cenário montado para treinamento de recrutas. Você é testado na pontaria, na rapidez e na destreza no lançamento de granadas. Isso na verdade é uma desculpa do jogo para te recomendar um nível de dificuldade, baseado na sua habilidade. Mas eu encarei como um desafio como qualquer outro. Quando passei por lá pela primeira vez e o jogo disse que eu tinha habilidade para jogar na dificuldade Normal, isso feriu o meu ego. Voltei e refiz o percurso até o capitão Price dizer que eu era bom o suficiente para jogar no Veteran. Foi aí que a coisa começou a desandar.
A fase do tiroteio na estação de TV já me fez desistir do jogo. É sério. Eu parei de jogar. Uns dias depois, falei com o Luck, porque ele tinha terminado o jogo há pouco tempo, e ele disse pra eu não desistir. Já de cabeça fria, decidi tentar de novo. A MUITO custo, consegui passar, já me arrependendo de ter escolhido a dificuldade que escolhi, e classificando o jogo como um dos mais difíceis que eu já jogara na vida.
O fato é: eu não tinha visto nada ainda.
Alguns tiros mais pra frente no jogo, temos uma parte em que você está em uma missão em dupla junto com outro personagem. Por causa de um evento que eu não vou detalhar porque é um dos momentos mais fodas do jogo, o cara está com as duas pernas fraturadas e não pode andar. Além de se esconder e atirar nos inimigos, você ainda tem que carregar o cara de um ponto a outro. O objetivo, em resumo, é atravessar uma área com forte presença inimiga, a fim de embarcar no helicóptero de resgate. A merda começa a feder particularmente forte quando, pelo rádio, você é avisado que o helicóptero vai atrasar.
Chegando ao ponto de resgate situado em uma clareira entre uns prédios abandonados e um pequeno e enferrujado parque de diversões, você larga o seu companheiro (que na verdade é seu superior) em uma partezinha mais elevada e com vegetação alta e torce para que ele saiba se virar com a sua sniper. O helicóptero ainda vai demorar quase cinco minutos para chegar, e o inimigo está mais do que ciente da sua posição. Logo aparecem soldados inimigos literalmente de TODAS as direções possíveis, em número ridiculamente alto (pense uns 30 contra dois). Quando você acha que está segurando as pontas, chegam mais helicópteros carregados de soldados oponentes.
E você com pouca munição, tendo que se virar com a que os inimigos largam. E você sem saber pra onde correr ou onde se esconder, já que não há um único lugar sem inimigos. E você só com dois ou três explosivos de proximidade para plantar no chão e tentar segurar sua posição. E você tento que sobreviver por quase cinco intermináveis minutos, sob fogo pesadíssimo. H-A-R-D.
Eu só sei que morri infinitas vezes nessa parte. Foram dezenas de tentativas até achar um lugar mais ou menos seguro para ficar sem morrer. Quando finalmente o helicóptero de resgate chegou e eu achei que o pesadelo tinha terminado, me caiu a ficha mais do que óbvia: a coisa ainda não tinha acabado, pois eu tinha que carregar o outro personagem até o helicóptero.
O problema era que eu estava literalmente do lado oposto da clareira em relação a ele, perto dos prédios. Eu teria que atravessar todo o campo de fogo, tomado pelos inimigos, passar pelo helicóptero, catar o cara e voltar metade do caminho, sem morrer. Me desesperei. Pensei “fodeu”. Mas como chorar não resolve problema, fiz o que qualquer soldado desesperado e suicida faria: saí correndo igual a um louco, jogando granadas de luz pra tentar cegar todo mundo — ignorando o fato de que eu mesmo estava sendo constantemente cegado por elas — e tentando atirar em que aparecese na minha frente. Imaginem que eufórica a cena.
No fim das contas o plano deu certo. Eu tomei MUITO tiro, principalmente na reta final, quando levava o cara pro helicóptero (tanto que tenho fortíssimas suspeitas de que o jogo te dá uma colher de chá nessa parte, porque tenho certeza que em qualquer outro momento eu não tomaria metade daquela quantidade de bala sem cair mort0), mas finalmente consegui. Levantar do sofá, pulando e gritando pela sala, foi apenas uma reação fisiológica perfeitamente natural e inevitável.
Nunca mais vou esquecer esse jogo.
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