Daltonismo

[Só para não perder o costume, o nosso leitor mais produtivo, o AyPyCy, lança mais um ótimo texto sobre um assunto relevante. Na verdade este foi o primeiro que ele me mandou, mas acabou ficando por último, pois já tínhamos assunto para as Discussões dos Fins de Semanas anteriores. Aproveitem!]

Acessibilidade, conforme a Wikipédia, significa não apenas permitir que pessoas com deficiências participem de atividades que incluem o uso de produtos, serviços e informação, mas a inclusão e extensão do uso destes por todas as parcelas presentes em uma determinada população.

Sou daltônico, o que, resumidamente, significa que tenho limitações com cores. No meu caso a deficiência é bem leve, confundo algumas tonalidades, mas mesmo assim ela existe. Há casos mais extremos onde o indivíduo não consegue identificar nenhuma cor… Enfim, este é um distúrbio que atinge cerca de 8% da população mundial (estatisticamente, das 402 pessoas que estão lendo isso via RSS, 32 devem ser daltônicas), sendo que afeta principalmente os do sexo masculino. Que conhecidamente são os maiores usuários de games.

Existem algumas situações em games que eu penso “Poxa! Quem programou isso não pensou em um daltônico?”. Vários são os exemplos, como jogos de puzzles “tetris-like”, onde você tem que alinhar três qualquer-coisa da mesma cor. O jogo Boogie Bunnies, disponível na Xbox Live Arcade, é um dos que tem este problema. Conforme avanço os níveis, mais cores aparecem, chegando um momento que as tonalidades são (para mim) bem próximas, e aí fica inviável continuar jogando. A solução para isso é simples, bastaria permitir uma opção dentro do jogo que habilitasse um esquema de símbolos dentro dos coelhos do game, como no Hexic HD, ou com cores de maior contraste, assim o daltônico poderia usufruir 100% do jogo.

Jogos mais complexos também me causam dificuldades. Vários jogos single players têm mapas de objetivos que usam bolinha amarela para objetivo primário, bolinha verde para objetivo secundário… e por aí vai. Poderia ser quadradinho para primário e bolinha para secundário. A série GRAW é um (mau) exemplo disso.

Halo 3 e Team Fortress 2 me dão problemas às vezes no multiplayer, quando se joga em time (Azul vs. Vermelho). Dependendo da localização do mapa, os tons gerados por causa das sombras podem me confundir… Aí só me resta olhar para o radar e ver se é amigo ou inimigo (mas, opa, no TF2 não existe radar!), ou esperar aparecer o nome do infeliz em cima do personagem. Desnecessário dizer que normalmente eu tomo um belo de um headshot. A solução seria muito simples, bastaria permitir que o usuário definisse a cor que seria vista para os times, assim o daltônico optaria por cores que ele identifica bem.

Bom, nesse momento os mais espírtos-de-porco entre vocês devem estar pensando: “Isso não me afeta, não sou daltônico!”. Ok, até entendo seu ponto de vista, mas pense: eu poderia estar no seu time do Halo 3, dando pontos fáceis para os adversários, então isso pode afetar outras pessoas também! E na verdade afeta mesmo: já fui xingado por pessoas do time quando algo parecido aconteceu, parecia que eu tinha deixado o adversário me matar. Depois disso aprendi que daltônico em inglês é “fucking colorblind”.

Copio aqui abaixo um exemplo do site Game Accessibility onde ele simula um mesmo jogo visto por uma pessoa normal e por um daltônico. É um GIF animado. A cada dois segundos ele alterna entre visão de uma pessoa com a visão normal para a de um daltônico.

DaltonismoNão sei se ficou clara a dificuldade (na verdade não sei mesmo, pois para mim as duas são iguais!), espero que sim.

Falei sobre o daltonismo, que é algo muito mais leve do que outras deficiências, mas sempre fico imaginando como deve ser difícil para alguém com uma deficiência mais séria jogar qualquer tipo de jogo atualmente e o porquê das produtoras ignorarem isso.

Imaginem pessoas com deficiência auditiva jogando um jogo sem legendas. Como Assassin’s Creed, por exemplo. Ela até consegue jogar, mas não vai extrair tudo o que um jogo pode nos dar (e a história é uma dessas coisas). Curiosamente, uma pessoa com Dislexia, ou seja, com dificuldades de aprendizagem de leitura, não pode ter o jogo só com legendas, como em Lost Odyssey, onde boa parte dos diálogos não tem som. Ela precisa do som para entender o jogo!

O curioso é que os games evoluíram tanto que até os problemas encontrados no mundo real aparecem aqui. E quando falamos de acessibilidade sempre pensamos nos casos extremos (deficientes visuais, etc.), mas além dos citados aqui, temos pessoas com problemas de memória, problemas com concentração e por aí vai. E tem pessoas que têm esses distúrbios e nem sabem, por serem leves. Eu mesmo demorei a descobrir que era daltônico; só descobri após um exame.

Como a maioria dos sistemas informatizados atuais, os games não se preocupam com acessibilidade, mesmo sendo a maioria das soluções simples. Mas ignoradas pelas produtoras/desenvolvedores.

Existe um projeto que visa pesquisar soluções para isso, o site é o já citado Game Accessibility, vale à pena conferir. Outro texto interessante que achei foi este do blog do Rodrigo Flausino, que também recomendo a visita. [Nota do Bracht: Tem também um bem interessante que saiu há pouco tempo no Ars Technica.]

E aí, alguém tem esse tipo de problema?

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