Videogame: a coisa mais importante entre as menos importantes

No penúltimo artigo, eu falei sobre jogos indie que chegaram ao grande mercado. Casos americanos e europeus. Mas há outro caso ainda, um caso que eu não poderia me esquecer ao falar sobre jogos independentes que chegaram ao mercado de massa. Ao menos não ao falar sobre isso em um blog brasileiro, já que é um exemplo claro de que não, não é só lá fora que você pode perseguir seu sonho de conseguir partir do desenvolvimento independente e chegar às mãos das multidões.
Você conhece a MDev? A menos que seja realmente aficcionado pelo assunto de desenvolvimento de jogos no Brasil ou fanático por conteúdo para celular, é provável que não. Mas você vai ficar sabendo sobre ela e algumas coisitchas mais, após o continue.
A MDev foi fundada por um rapaz que, desde os 13 anos, quis trabalhar com jogos, desenvolvendo-os e criando-os em casa. Depois de fazer seu curso em Ciências da Computação e seu Mestrado em Inteligência Artificial, ele criou a Palmsoft, empresa especializada na criação de jogos para palmtops e celulares. E você acha que pelo fato de ter um curso em Ciências da Computação e um mestrado em IA o caminho deste rapaz, Denis Coelho, foi fácil? Nem de longe: foi preciso muita determinação e persistência para, durante cerca de dois anos, apenas desenvolver jogos, sem vendê-los.
Mas um dia ele cruzou com Valter Bittencourt, empresário do ramo de telecomunicações e que viu na pequena empresa um grande potencial. Hoje ela é conhecida como MDev e desenvolve para as mais diversas operadores do Brasil e do mundo, seus jogos marcado presença inclusive em celulares de países como Malásia, Ucrânica, Chile e México. Aliás, a empresa não pertence mais a Denis Coelho, e sim ao grupo CRE8, que a comprou por US$1,6 milhão. Hoje em dia, Denis trabalha na empresa em um cargo de nome bonito: Diretor de P&D de Games. Um título que provavelmente faz qualquer desenvolvedor brasileiro sentir uma pontinha de inveja ao ler.
Exemplos como dele chegaram até mesmo a serem notícia no Estadão, e é prova de no mínimo duas coisas: a de que é possível, sim, conseguir sobreviver de jogos, mesmo no Brasil, mas que isso não é, nem de longe, fácil. Foram cinco anos na faculdade, mais alguns anos no mestrado, dois anos desenvolvendo e dispendendo tempo e recursos sem obter retorno financeiro. Não fosse a paixão do homem pelo desenvolvimento de jogos, ele já teria desistido da idéia há muito tempo para se dedicar a uma área de retorno mais rápido e certo, como o desenvolvimento de softwares para grandes empresas.
E este não é o único exemplo. A Techfront, empresa fundada em Curitiba e que atualmente possui uma filial em Florianópolis, já possui diversos de seus produtos em grandes portais e atualmente detém as licenças para desenvolver para Wii e DS. Ela pretende dobrar de tamanho em 2008. E você duvida dessa possibilidade? Eu certamente não duvidaria, não agora que a Techfront possui um contrato com a americana EGames e que já tem um jogo que ficou durante algum tempo na lista dos mais baixados no portal Yahoo!.
É uma empresa nova, fundada em 2006, mas que cresce de maneira espantosa. E, como vocês devem saber, grandes crescimentos costumam atrair grandes investimentos, como no caso da americana EGames, que resolveu investir na Techfront.
Há algumas quartas-feiras, nesta mesma coluna, o Vinícius escreveu sobre outro jogo brasileiro independente, o Cave Days, feito por um estúdio brasileiro que usa uma fórmula muito comum lá nos EUA, mas não muito por aqui: disponibiliza um demo e, caso o jogador se interesse, ele pode baixar a versão completa se a comprar.
A Abragames (Associação Brasileira de Desenvolvedores de Jogos Eletrônicos) conta com um número cada vez maior de associados. E mesmo a toda-poderosa Sony, que até hoje nunca deu muita bola para o Brasil, começa a querer redimir o erro de não ter investido antes no Brasil, prometendo apoio às universidades e aos desenvolvedores brasileiros de jogos. E uma grande empresa como essa dificilmente decidiria investir em algo sem uma chance razoável de retorno, não é mesmo?
Se você achava que o mercado de jogos em nosso país não tinha futuro… bom, se até mesmo a toda-poderosa Sony já reviu seus conceitos sobre isso, por que não você?
Até quarta que vem!
Posts relacionados:
- [Quarta Indie] Experimental Gameplay Project, o outro coração Indie
- BRGAMES: Governo abre a mão para ajudar a indústria de games nacional
- [Quarta Indie Especial] Seumas McNally, oito anos depois
- [Quarta Indie] Cave Days: independente, brasileiro e com jeitão retrô
- [Quarta Indie] A estrela-do-mar (em 2D) dos independentes: Aquaria