Hoje pela manhã a SEGA fez aquilo que dela se esperava, tirando o véu do semi-misterioso Project Needlemouse. O que era apenas potencial virou promessa: o novo jogo do Sonic será tudo que os fãs sempre pediram, e que a empresa se recusava a fazer.
O primeiro trailer divulgado hoje e o teaser da trilha sonora que saiu essa semana entregam o ouro. Nada de 3D (adeus, problemas de câmera e jogabilidade), jogabilidade clássica (corra para a direita, pegue anéis, pule nos inimigos, evite espinhos, chegue ao fim da fase com a sensação de não ter visto metade dela), musiquinhas bacanas, presença de velhos movimentos (como o Spin Dash), aventura solo do Sonic (sem coadjuvantes desnecessários), inimigos e cenários da época do Mega Drive refeitos em alta definição. É como se a SEGA estivesse dizendo em alto e bom som: “É isso que vocês queriam, né? Então tá, vamos fazer exatamente isso.”
Demonstrando extrema confiança no próprio taco, ainda batizaram o jogo de Sonic The Hedgehog 4. Não tiveram medo de posicionar o jogo lado a lado com Sonic 3, que é um dos mais citados quando se discute qual o melhor jogo da série.
Bolas. A SEGA tem.
Mas será que é suficiente?
Amigos, a questão aqui não é ter bolas. Bolas não vendem jogo nem garantem boas notas em reviews, nem mesmo quando o jogo é de futebol. A questão aqui não é ter coragem. A SEGA demonstra coragem e confiança poucas vezes vistas na história recente do estúdio, mas isso não é garantia de que teremos um jogo de qualidade.
Muito pelo contrário: ao hypar o jogo dessa forma, a SEGA tem a certeza absoluta de uma coisa, e uma coisa apenas. De que os fãs já estão felizes, mesmo antes de jogar o negócio.
Era isso que todo mundo queria! Sonic sozinho, sem personagens inúteis pelo caminho! Sem diálogos! Sem problemas de câmera! Sem pseudo-atitude adolescente chata! Sem invenções idiotas de jogabilidade como anéis de habilidade, espadas ou transfiguração em lobouriço!
Só que não podemos nos esquecer que não era a ausência dessas coisas que fazia com que os primeiros jogos do ouriço, lá na primeira metade da década de 90, fossem tão legais.
As fontes da magia dos primeiros jogos (falo aqui basicamente do Sonic 1 até o Sonic & Knuckles), na minha opinião, eram duas:
» Level design: Cada fase era única, tanto em personalidade quanto em design, e, de alguma forma que eu não tenho capacidade para explicar, trazia um misto perfeito entre trechos de velocidade absurda e momentos de interação com o cenário (partes onde era mais importante pular com precisão do que correr muito). Pensando em retrospecto, tudo era muito simples: as fases eram únicas porque, além de serem claramente distintas em visual e trilha sonora, cada uma tinha tipos de plataformas diferentes para que o jogador transpusesse.
Quem não se lembra dos teleféricos em Hill Top Zone, das areias ascendentes de Sandopolis Zone, dos blocos de mármore flutuando sobre a lava em Marble Zone ou das pás de pinball em Casino Night Zone? Quem não se lembra dos tubos e dos cilindros giratórios de Hidrocity Zone, ou de voar no avião do Tails em Sky Chase Zone? Ou das plataformas acorrentadas no gelo de Ice Cap Zone, que precisavam de um empurrãozinho do Spin Dash para se moverem?
Esse tipo de variedade, ainda que mínima, da jogabilidade em plataforma, é que torna todas as fases – e os jogos, por consequência – tão memoráveis.
» Sábia implementação de novidades nas sequências: Todo mundo mete o pau na Sega por ela ficar enchendo cada novo jogo atual do Sonic com todo tipo de novidade desnecessária, mas muitos esquecem que ela mesma sabia fazer isso muito bem no início da série.
Analisemos: Sonic 1 inaugurou a fórmula. Sonic 2 impressionou por trazer um segundo personagem controlável e a possibilidade de virar Super Sonic depois de conseguir todas as esmeraldas, mas mais ainda por utilizar muito melhor os recursos de hardware do Mega Drive (Sonic 2 foi tipo um Crysis da sua época, já que o ouriço ia tão rápido que a tela muitas vezes nem conseguia acompanhar). Sonic 3 dedicou mais foco à narrativa e trouxe um modo para dois jogadores. E Sonic & Knuckles chutou o baldinho com força: não apenas permitia escolher entre jogar com várias combinações de personagens (Sonic e Tails, só Sonic, só Tails ou só Knuckles), como também veio em um cartucho com abertura para outro cartucho – abrindo literalmente as portas para a existência de Sonic 3 & Knuckles, o jogo definitivo da série para mim, que era liberado quando se encaixava o cartucho do Sonic 3 na entrada extra.
Cada jogo trouxe adições importantes à série, numa época em que a Sega sabia adicionar coisas sem estragar o resto. Essas adições faziam com que cada jogo fosse, de fato, novo.
Em Sonic The Hedgehog 4, corremos dois riscos: ou a Sega pode seguir o caminho simples e fácil do fan-service, entregando um jogo que traz aquilo que promete (e que todo mundo quer), ou ela tenta retomar o espírito de inovação que fazia a série ser tão brilhante em seu início.
Na primeira hipótese, teremos um jogo que, mesmo sendo em HD, 16:9 e bonitão, não vai ter a mesma sensação de novidade dos Sonics antigos. Na segunda, o risco é de estragarem tudo. Afinal, hoje em dia ninguém bota a mão no fogo em nome da capacidade da Sega de inventar algo novo e decente para a série.
E isso que eu não concluí o primeiro ponto dessa breve análise, o design das fases. Mesmo que eles não queiram inventar moda e correr riscos, o Sonic 4 ainda terá que ter fases no mínimo tão memoráveis, diversificadas e cheias de personalidade quanto as do Sonic 3 para merecer o nome. As fases da série Rush, por exemplo, são legais, mas geralmente não chegam nem perto das antigas.
Por isso que eu acho mais difícil me empolgar pela qualidade deste tal Sonic The Hedgehog 4 do achei de me empolgar pela qualidade do Sonic Unleashed, quando ele foi anunciado. Para o Sonic Unleashed ser bom, tudo que a Sega precisava era aprender a fazer jogos decentes para as plataformas atuais. Todo mundo consegue, pô, não pode ser tão difícil. Para o Sonic 4 ser bom como precisa ser para merecer o nome, a Sega precisa voltar a ser a empresa talentosa que era em 1994. E isso eu acho bem mais difícil.
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