Videogame: a coisa mais importante entre as menos importantes

Todos vocês já leram o ótimo texto do AyPyCy sobre pirataria publicado esta semana, certo? Muitos, além de ler, fizeram questão de comentar, e nisso saíram altos comentários super pertinentes e exemplares. Por isso hoje eu acho apropriado trazer duas novas discussões baseadas naquela. Ainda sobre pirataria, porém mais específicas.
São dois pontos sensíveis, portanto estou ansioso para conhecer a opinião de vocês.
Esta questão veio à tona entre o AyPyCy e eu durante o processo de edição do texto dele. Depois de ter feito as minhas costumeiras edições, eu mandei a versão final do texto para que ele aprovasse, então ele questionou uma edição que, por isso, acabou não indo ao ar. Abaixo vai uma transcrição do parágrafo em questão, com a parte que eu sugeri, mas foi cortada, em negrito.
Já ouvi vários discursos defendendo a pirataria, mas sempre fica algo do tipo: “Não tenho dinheiro para comprar jogo original”. Em muitos casos isso é verdade, aí beleza, fazer o quê. Mas já ouvi isso de uma pessoa que tinha um Xbox 360 (R$1,500), uma TV LCD de 32? (R$2,000), saía de balada sempre que quisesse sem se preocupar com grana e tinha um emprego que lhe pagava bem melhor do que a média dos brasileiros. Preciso explorar mais isso? Ok. Meu sonho é ter uma BMW. Mas não tenho como comprar uma, e aí? A situação é a mesma, por mais que se tente dizer o contrário.
O que aconteceu aí foi que eu acabei mergindo a minha opinião no post dele. Só que ele não tem a mesma opinião, então, mesmo depois de eu ter decidido cortar esse trecho, respeitosamente a gente começou a discutir por email essa questão.Vou copiar aqui, diretamente dos emails que a gente trocou, os nossos argumentos, depois peço que vocês dêem as suas opiniões.
Meu argumento:
[Depois dele ter questionado a minha sugestão de incluir aquele trecho] É, aí eu deixei transparecer um pouco da minha opinião. Eu acho que se a pessoa não tem MESMO grana pra comprar originais, ela pode usar piratas. Prefiro que as pessoas joguem. Acho cruel dizer “não, você é muito POBRE pra ter videogame”…
Às vezes é só um moleque que é sustentado pelos pais e consegue ganhar o console a muito custo, sacrificando presentes do ano inteiro. Esse aí não vai ter mesmo dinheiro, mas ele tem comida, estuda, tem tudo. Só que não trabalha, portanto não pode comprar seus próprios jogos. Aí vai dizer pro moleque que ele não pode jogar? É embaçado… Qual a tua opinião?
Argumento do AyPyCy:
Então… complicado. Eu não concordo, pois nessa situação que você citou a criança não tem o poder de decisão, mas por outro lado ela está numa fase de educação. Se nesse momento os pais explicarem o porque dele só pode ter um ou dois jogos, a criança é educada. Se permitem o uso de piratas desde criança, acho que no futuro a coisa está tão enraizada na educação que não tem mais volta.
Digo por mim mesmo, eu tive a felicidade de ter uma mãe dona de locadora de games na decada de 90 (YES!!!) Mas no fim precisou fechar, pois a concorrência era de jogos piratas enquanto ficávamos nos originais. Lembro que antes da locadora existir eu queria um Master System, mas como era muito caro eu fiquei um bom tempo no Atari. Acho que a grande mensagem é: “Precisa todos estarem up-to-date? Se você não tem grana para um PS3, não pode se contentar com o PS2? Jogos originais do PS2 são encontrados por R$49,00… Só não coloquei isso no texto porque pode soar agressivo e perder a empatia do leitor… (perdi a sua?)”
Essa eu acho que é ainda mais complicada. Durante a minha ainda breve “carreira” no meio jornalístico de games, já trabalhei (ou apenas visitei) algumas redações de revistas de games do país, e sim, elas usam jogos piratas. Todas as que eu conheci. Embora possa parecer uma supresa quando dito assim, não é. Qualquer um que pensar dois minutos a respeito consegue concluir que, se não existisse a opção de jogos piratas, não haveria meios de cobrir satisfatoriamente a indústria de games. Os reviews seriam limitados à meia dúzia de jogos que as assessorias de imprensa resolvem mandar. Ano passado, eu lembro, tinha redação por aí comemorando o fato da Sony ter mandado um review copy (cópia de imprensa, enviada antes do lançamento do jogo especificamente para fins de review) de God of War 2. Claro, com certeza é motivo de comemoração, ainda mais em se tratando de Sony (que não tem representação no Brasil) e de um jogo badalado com GoW2, mas esse é o tipo de coisa que é rotineira nas revistas e sites americanos, japoneses e europeus. Lá eles recebem review copy até do jogo mais porcaria.
Tudo isso pra dizer o seguinte: cobrir games no Brasil não é nem um pouco fácil. Ou se usa pirataria, ou não tem como fazer. Simples assim. Qual é a opinião de vocês a respeito? Vocês acham que não é bem assim, que deve haver um jeito, que o pessoal apela para a pirataria não porque é o único jeito, mas porque é o mais fácil? Ou dão razão e acham que realmente é o único jeito?
Eu, pessoalmente, acho esta segunda opção. É muito bom e honrado, na teoria, afirmar que as revistas são formadoras de opinião e têm que dar o exemplo de só se usar originais. São mesmo, teriam mesmo. Mas simplesmente não me parece haver um jeito prático de fazer isso acontecer. Não nesse momento, não com o país nesse estado. Embora eu tenha certeza de que todo mundo estaria mais feliz se pudesse trabalhar só usando originais.
Aproveito o papo para falar sobre o Continue. Nós somos muito menos do que uma revista, nós somos apenas um blog sem contato com nenhuma grande empresa (ainda), sem a menor possibilidade de receber review copies em um futuro próximo. Mas mesmo assim eu me esforço para só usar originais. Neste momento, por exemplo, eu já poderia ter acumulado umas trinta horas, ou mais, de GTA IV. Tem um “piratex” ali em cima do rack da TV, ao lado do 360 desbloqueado do meu cunhado, que está aqui em casa por tempo limitado. Mas como eu comprei o meu jogo original (é pra estar chegando essa semana), não estou jogando. Prefiro esperar o original. O N+ e o Smash Bros Brawl analisados também foram originais, comprados por mim, enquanto o Assassin’s Creed foi pirata, jogado no já citado 360 desbloqueado que está comigo. Um problema será com jogos de DS: como 99% dos donos de DS, eu tenho R4, que ganhei de natal. Qualquer jogo de DS que for ser resenhado terá sido inevitavelmente copiado do http://ds.rom-news.org. Vocês se importam?
Três, dois, um… valendo!
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