Age2

[Será que está rolando uma competição pelo melhor texto entre os nossos leitores-participativos? Na semana em que o AyPyCy se superou com o texto sobre pirataria, o Daniel Trezub ataca com esta que é, na minha opinião, a melhor edição da série Os Incansáveis até agora. Se eles estão mesmo competindo eu não sei, mas quem está ganhando é a gente!]

Os jogadores encontram-se numa sala. Alguns se conhecem, outros nunca se viram antes. O host esclarece algumas regras simples para aquela partida. Um engraçadinho digita o número 7 e tecla enter. Uma risada abobada e quase insana enche o recinto. Outro responde digitando 14 e o coro grita “Start the game already”! Enquanto isso os demais jogadores discutem os times a serem formados, quantos computadores jogarão contra eles e em que nível.

Aí 14, de novo. Alguém responde com um 31, e você nota que havia esquecido da existência dos padrecos. “Uoh-lo-loooo”. Enquanto divaga sobre o grau de sacanagem que esses padres carregam consigo, você nem percebe que só falta você clicar no “I’m Ready”. “Start the game already” ecoa várias e várias vezes em seu fone de ouvido. Envergonhado, você clica no “I’m ready” e a mensagem “Waiting for other players” aparece.

Manda um dos peões catar comida, o outro pedras e o terceiro, madeira. Se você deu sorte de jogar com os chineses, tem mais peões à sua disposição. Assim que possível, você clica no scout à espera perto dos peões e marca waypoints ao redor deles, em uma espiral crescente, para fazer o reconhecimento do terreno. Um moinho, um barracks e logo seu exército está pronto para o primeiro raid. Torres, talvez, em locais estratégicos. Em último caso, cercas, que depois serão transformadas em muros.

Então, enquanto você ordena que um dos novos peões comece a derrubar mais árvores (esse não é um jogo muito ecológico), o terrível, inconfundível e inexorável som de sirene toca. A primeira reação é olhar no mapa, no canto inferior direito. Um clique é o suficiente para ver sua população ser dizimada por um bando de bárbaros armados com clavas e lanças. O barulho de aço batendo, os gritos dos peões, e só resta tocar o sino para tentar salvar alguma coisa e rechaçar o ataque. Se você der sorte, pode ser que um peão consiga escapar e construir outro Town Center, mas aí as suas chances de sobrevivência serão remotas.

Provavelmente sua civilização não chegará a ver outras eras, com castelos, cavaleiros em brilhantes armaduras e armas de fogo. Provavelmente essa partida de Age of Empires II: The Age of Kings estará perdida. Mas sempre há uma próxima.

» Era eterna

Não sei porquê, mas uma das primeiras coisas que me vêm à memória quando falo de Age2 (como é conhecido pelos íntimos) são os sons. Da música do menu (que estou cantarolando agora), passando pelas provocações (“Ah! Been rushed!”) e o inconfundível som da sirene que anuncia que você está sendo atacado, até o estalo das cordas dos trebuchets destruindo as muralhas inimigas. Age2 é um jogo que (quase) pode ser contado utilizando-se apenas o sentido da audição. Ou sua sonoplastia.

Um dia desses um amigo estava ensinando sua namorada a jogar o RTS de 1999. Eu estava na sala fazendo alguma outra coisa e de repente ouvi as sirenes e as espadas se chocando. Na hora soube de que se tratava. Age2 está na minha lista de jogos a jogar sempre. E não só na minha.

É muito fácil achar partidas de Age2 sendo iniciadas no AllSeeingEye. Pessoas de todas as partes do mundo ainda jogam essa pérola de quase dez anos de idade, mesmo apesar de existir uma continuação. Talvez o fato da continuação ser uma porcaria ajude. Mesmo assim, ótimos RTS foram lançados depois, como o Rise of Nations, que muita gente considera como o verdadeiro sucessor de Age2.

Para mim, Age of Empires 2 tem seu charme justamente pelo fato de usar tão bem os recursos que tinha disponível na época. Notem que em 1999 os jogos em 3D já estavam aparecendo, mas a Ensamble parece que resolveu continuar apostando nos gráficos 2D. Gráficos estes que são ótimos, em uma escala e nível de detalhes perfeitos — nem muito pequenos e sem detalhes, como em Rise of Nations, e nem grandes a ponto de atrapalhar o jogo, como algumas unidades e prédios de Warcraft 2, por exemplo.

Além disso, o fato de cada unidade ter várias falas diferentes é um ponto muito positivo. Lembremos que são treze civilizações. Cada uma delas dispõe de dezenas de unidades, e cada uma com mais de uma fala diferente quando você as seleciona, e no idioma da civilização. Junte a isso o fato de termos vários tipos de construções, todas condizentes com a cultura em questão, e tudo em um único CD. Na verdade, minha instalação completa com as músicas e sons de Age2 tem pouco mais de 200MB.

» Lição de casa

Uma das coisas que mais me impressionaram em Age of Empires II é como os desenvolvedores fizeram a lição de casa direitinho, pesquisando e colocando no jogo coisas críveis e historicamente (quase) acuradas. Foi Age of Empires, por exemplo, que popularizou a fabricação de trebuchets, que eram armas de sítio reais da idade média. Uma busca rápida na internet resulta em várias páginas com esquemas, estudos e vídeos sobre eles. Um dos meus objetivos para esse ano (de novo), inclusive, é construir meu próprio trebuchet, com mais ou menos 30cm de altura e que atire de verdade.

Isso me lembra de quando assisti Gladiador no cinema. Só consegui dizer três palavras depois da sequência da batalha inicial: “Cara, muito Age!”. Catapultas com bolas de fogo, fileiras de infantaria e arqueiros. Se fizessem um filme sobre Age of Empires seria assim, definitivamente. Só faltou mesmo os soldadinhos burros que ficam na área de fogo das catapultas bem na hora que elas atiram, para morrerem junto com os inimigos.

Gladiador
Cena do filme que é “muito Age”

Lendo “O Arqueiro”, de Bernard Cornwell, fiquei sabendo que os ingleses eram temidos em sua época por seus arcos longos e batalhões de arqueiros, que faziam o terror dos cavaleiros. Eram os ingleses que realmente iniciavam as batalhas, pois suas flechas chegavam mais longe e obrigavam os inimigos a bolarem estratégias diferentes. Exatamente como no Age. Malditos ingleses e seus arcos longos! Quando você vê, já está sendo atingido por suas flechas, sem chances de fazer nada. Piores que eles só mesmo os chineses com suas Chu Ko Nu, ou os coreanos com suas carroças de guerra, ou aqueles vikings de calça listrada, ou os cavaleiros templários, os samurais japoneses e os camelos que atiram cimitarras…

Um caso à parte são as batalhas navais. Arqueiros e torres tentando afundar galeões, navios incendiários e de transporte. Os mapas de arquipélagos são diversão garantida, com sua estratégia diferenciada e batalhas travadas em alto mar. Quando você menos espera, tem um bando de inimigos desembarcando em suas praias tentando desviar sua atenção da esquadra de navios-bombardeiros que tentam destruir seus portos. Um amigo meu tem mania de construir quilômetros e quilômetros de muros, e quando está em uma ilha ele tem a cara de pau de construir seus muros acompanhando a linha da costa, impossibilitando o desembarque de tropas inimigas. A estratégia funciona, mas é chata pra caramba.

» Para terminar

Achei no YouTube (e coloquei ali depois deste parágrafo) um vídeo da abertura do jogo sem cortes, bem mais longo que o normal. Vale a pena dar uma olhada e lembrar daquele jogo de xadrez. Existem também vários vídeos de partidas, ataques massivos, mancadas e outras coisinhas relacionadas ao jogo. Tem até um “Coisas que você sempre quis saber sobre Age of Empires 2“, tipo “quantos sabotadores são necessários para destruir uma Wonder?”, entre outros.

E, para os realmente viciados, vários sites por aí fazem campeonatos com ranking e tudo, e até mesmo mods para o Age2. Se você já cansou das campanhas que acompanham o pacote, fique feliz em saber que usuários desenvolvem campanhas novas, mapas e utilitários (cheaters malditos). Afinal de contas, um jogo só vai continuar a existir enquanto pessoas o jogarem. Ainda mais se for um jogo com um apelo multiplayer forte como é o caso de Age of Empires.

Vida longa aos reis!

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