Videogame: a coisa mais importante entre as menos importantes

Na sexta-feira passada, uma notícia deixou um gosto amargo na boca dos jogadores brasileiros: o Brasil não estava na relação de 13 países latino-americanos que receberiam oficialmente os consoles PlayStation e o serviço digital PlayStation Network. A razão, você já sabe: impostos elevados e altos índices de pirataria.
Alguns dias depois a Nintendo divulgou a lista que envia todo ano para a Secretária de Comércio dos EUA, com países que considera os principais focos de pirataria de seus produtos. Entre eles, lá estava o Brasil. A Big N traçou um retrato bem realista da situação dos videogames ilegais no país:
Não há combate eficaz ao mercado paralelo no país. Não houve nenhuma apreensão significativa de consoles Nintendo Wii ou DS ou cópias falsificadas de jogos nas fronteiras brasileiras pela polícia ou pela alfândega. Processos judiciais contra acusados de pirataria são virtualmente inexistentes no Brasil. Os altos impostos brasileiros são um obstáculo para o comércio de produtos de videogame legítimos no Brasil.
Até aí, nenhuma grande novidade, certo? Eis que o Conselho Nacional de Combate à Pirataria, órgão colegiado composto por 13 entidades públicas e 07 privadas, emitiu uma declaração à imprensa, na qual o seu presidente, o senhor Luiz Paulo Barreto, disse que os ataques da Nintendo foram feitos de forma leviana, equivocada e imprecisa. Confira na íntegra:
As declarações foram recebidas com surpresa e irritação. Não consigo entender, porque foi muito estranho: uma empresa japonesa reclamar ao governo americano da atuação do Brasil. No ano passado, 847.334 CDs de games piratas foram apreendidos no Brasil, e o Wii aparece como um dos principais modelos retirados do mercado clandestino. Outros 204.828 games para computador, incluindo os da marca Nintendo, também foram apreendidos.
Há um reconhecimento internacional sobre o avanço do Brasil no combate à pirataria. Em 2007, o Brasil saiu da lista negra em uma avaliação que é feita pelos EUA dos países. Fomos para a ‘lista de observação’. Só se os ataques da Nintendo forem uma estratégia para voltarmos para a lista negra, mas aí é um tiro no pé porque estão atacando seus próprios parceiros.
A Abes (Associação Brasileira das Empresas de Software), uma das entidades membras do Conselho, há três anos vem desenvolvendo uma parceria com o governo para a capacitação de funcionários públicos para o combate a produtos piratas. A Associação relata que há uma tendência de queda no índice de pirataria no Brasil.
Além de medidas repressivas, a pirataria precisa ser combatida com mudanças na estratégia comercial das empresas, que deveriam rever seus preços.
O Sr. Barreto não deve participar muito dos treinamentos da Abes ou saberia que os discos que eles apreendem são em sua maioria DVDs e não CDs. E que, até onde eu me lembro, não existem jogos de computador da marca Nintendo. Da mesma forma, não deve ter lido o relatório completo ou saberia que se trata da norte-americana Nintendo of America e o objetivo da empresa com isso é pressionar o governo dos EUA a exigir de seus parceiros comerciais mais esforços na repressão à pirataria.
Deixando os detalhes técnicos de lado, ambas as notícias deveriam ter entrado ontem aqui no Continue. Mas a conversa sobre elas resultou em uma grande discussão interna e optamos por segurar o assunto para o fim de semana. Depois do continue você confere um longo debate sobre o mercado brasileiro de jogos, com a participação de quase toda a nossa equipe. E claro, participe da discussão nos comentários!
O ponto que mais chamou a atenção de nossos intérpridos redatores foi a acusação do sr. Barreto de que “a pirataria precisa ser combatida com mudanças na estratégia comercial das empresas, que deveriam rever seus preços“. Será que dá para fazer isso? Será que o lojista ganancioso é o culpado pelos preços elevados? Com vocês, nossas opiniões:

Lef » Essa notícia realmente me deixou com raiva, é muita hipocrisia.
Daniel » Finalmente alguém concorda com algo que eu falo a mais de 10 anos! Mas os caras desse Conselho vivem numa bolha, isolados de todo o resto da sociedade brasileira. Afirmar que a pirataria tende a diminuir?
Suzana » Essa resposta deles à Nintendo é hipócrita ao extremo… e não podia ser mais babaca. Mas, Daniel, o foda é o imposto. Os consoles são baratos mas o imposto complica. Não é a tôa que você consegue um DS japonês por 300 reais com cambista por aí, enquanto os revendedores da Lamatel o vendem por 700 reais. Tem o fator ganância, mas o fator imposto é bem mais pesado.
Daniel » Mesmo lugar que vende no mercado cinza mete a faca, sem pagar imposto… e quem diz que vende legal mete mais a faca ainda. Fazendo as contas o lucro dos caras dá mais de 100%. Acho que é disso que o Barreto está falando. Sem contar que a impressão que dá é que os distribuidores daqui compram no varejo lá para revender aqui, não é possível. Se você for aos EUA e trouxer um DS de lá pagando os impostos, vai dar quase a mesma coisa que comprar “legal” aqui, só que ainda assim mais barato. O frete dessas coisas é tão caro assim? Por mais que o imposto seja alto, a falta de vergonha desses caras ainda é maior, daí não tem mercado que resista.
Lef » Você tem certeza disso, Daniel? Quero dizer, eu posso afirmar que os impostos no Brasil são abusivos porque eu sei que são mesmo, mas não tenho propriedade para falar sobre a margem de lucro das lojas. Manter um negócio no Brasil é tão absurdamente caro – e não falo só de importação – que acho que esse preço seja mais graças às taxas do que um complô formado por todas as lojas para roubar o cliente. Afinal, a lógica do capitalismo é ir baixando o preço para ganhar do concorrente. Se isso não acontece aqui é porque tem alguma coisa “maior” impedindo. Foi muita cara de pau do cara falar isso. É muito fácil jogar a culpa no colo dos outros.

Fabio » SALAFRÁRIOS! GANANCIOSOS! CARAS-DE-PAU! LADRÕES!
*flamer*
Suzana » Daniel, acredite, imposto é foda. Sério, não é complô. Não faz sentido ter complô. Cartéis fazem a indústria quebrar, matam a livre concorrência. Dêem uma lida nesse texto do Yahoo Financials que explica como os impostos deixam os videogames 200% mais caros no Brasil. Quem compra um game no Brasil paga 72% de impostos. No Natal, a carga tributária dos jogos eletrônicos só perdiam para os 78% cobrados pelos perfumes.
Daniel » Notem que ninguém fala do preço no atacado desses produtos. Sempre falam “nos EUA custa tanto, no Brasil chega por tanto”. Eu realmente não acredito que os caras comprem no varejo , tipo de uma distribuidora lá fora ou algo do gênero. Isso é amadorismo! E enquanto for mais barato trazer um por conta própria do que comprar oficial desses ladrões, vou continuar achando que sim, os caras são amadores e ladrões. Os impostos ajudam? Com certeza, mas os revendedores não fazem questão nenhuma de dar uma força para alavancar o mercado. O pensamento deles parece ser “Videogame é coisa de rico e rico tem que pagar os olhos da cara nessas coisas mesmo”.
Suzana » Cara, se 75% do preço é imposto, concorda que o lojista não consegue fazer praticamente nada? Por exemplo, um jogo que custa 30 reais para ser produzido chega para ele por 100. Daí ele vende por 120. Jodo de Nintendo DS se encaixa perfeitamente nesse preço. Ele pode abaixar para 110, 105 para tentar vender muito mais, com uma margem de lucro infíma. Mas é um desconto tão pífio que não vai dar resultado algum, queriamos o jogo por cinquenta. Não rola. É uma bola de neve: a base do preço é alta, então o lojista coloca uma margem de lucro alta para cobrir a despesa que tem com uma demanda baixa.
Pablo » Vou citar um exemplo que ouvi recentemente: num Duty Free, freeshop desses de aeroporto, um Nintendo Wii custa 500 reais. Esse seria o preço dele no Brasil, sem os impostos e já com o lucro do lojista. Porém ele chega ao lojsta brasileiro por R$ 1300,00. Em cima disso o cara ainda tem que incluir o custo operacional dele (salários, conta de luz, água, café, aluguel, telefone, o que mais tiver) e claro, seu lucro. É claro que tem os sem noção, mas a maioria simplesmente não tem como cobrar mais barato. O que eu acredito que deveria ser repensado no Brasil é a forma de distribuição. Deixar de lado as caixinhas bacanas, manuais impressos e outros itens que encarecem o produto e distribui-lo em bancas de revista. Indo mais além, é o que a Valve faz com o Steam, né? Distribuição pura do conteúdo digital, que no final é o que interessa. O negócio é adequar o produto ao valor que pode-se pagar. Mas nada disso adianta muito sem um corte brutal na carga tributária.
Daniel » Concordo. Mas não esqueçam que ANTES do lojista tem o importador e o distribuidor. No caso da Nintendo, ambos são representantes oficiais da própria fabricante, certo? Seria interessante para a Nintendo que seus representantes vendessem mais, certo? É aí que eu quero chegar. Parece que falta vontade da Nintendo dar um desconto, ou do importador negociar com ela essa condição comercial. As vezes dá a impressão que o cara vai aos EUA e compra tudo com seu cartão de crédito e revende aqui jogando todos os impostos e mais um lucrinho. É só ver o Mercado Livre. Qualquer um arruma uma loja fora que venda DS, comprar lá e revender aqui. Ou a Nintendo é muito inflexível com os importadores ou os caras nem negociam com a Nintendo.

Suzana » Quem acha uma loja fora e vende no Mercado Livre não paga imposto de importação. Pergunta: por que o mundo inteiro consegue bons preços e a gente não? Somos os únicos gananciosos?
Daniel » Exatamente, não paga. Até um tempo atrás, você achava DS no ML por 500 reais. Se você pegasse esse valor, já com o lucro dele e colocasse todos os impostos em cima não chegava ao preço do DS oficial no Brasil. Como pode, se o cara que vende o DS oficial compra direto da Nintendo, no atacado, e supostamente, quem compra no atacado paga um preço mais barato?
Pablo » Olha, eu paguei 800 reais num DS “oficial” na Fnac no Natal. Dá menos do que o preço do Mercado Livre + 72% de impostos.
Lef » O cara do Mercado Livre não tem custo operacional nenhum. Não se esqueça que para sustentar uma loja também tem uma porrada de custos. Ou seja, para o lucro ser o mesmo, o preço já tem que ser extremamente mais elevado.
Daniel » Vejam, eu não estou dizendo que os impostos não exercem um papel nisso tudo. O que eu estou dizendo é que falta vontade de quem fabrica e de quem vende para termos um preço mais justo, mesmo com os impostos.
Pablo » Na real, não é interessante para eles te dar preços mais justos em troca da redução do lucro deles. Claro que eles gostariam de vender mais e com um preço similar ao cobrado do resto do mundo. Mas para isso só abaixando os impostos porque sinceramente, não vão reduzir os ganhos deles. Como a Suzana colocou: se você vende pouco, tem que vender caro cada unidade, para compensar a baixa demanda.

Daniel » Mas se você vender barato, vai vender mais. É só achar o meio-termo.
Fabio » E se o meio-termo é justamente esse que temos agora?
Posts relacionados:
- [Discussão de Fim de Semana] Games, Brasil e você: tudo a ver?
- [Entrevista] Entenda e acompanhe o andamento do projeto de lei que pode finalmente tornar o Brasil um bom lugar para quem gosta de games
- [Discussão de Fim de Semana] Pirataria é um assunto que sempre rende: dois novos tópicos para nós discutirmos
- [Discussão de Fim de Semana] Nintendo vs. Microsoft na arena do online
- MySpace Brasil vai dar um notebook para quem fizer a melhor cobertura pessoal do Campus Party